sábado, 8 de janeiro de 2011

Vício Frenético

Bad Lieutenant, 1992
Dirigido por Abel Ferrara, com Harvey Keitel, Victor Argo, Frankie Thorn.

Palavras chave: drogas, violência




Ao som de “Pledging My Love”, duas mulheres se insinuam sexualmente como homem e mulher. Enquanto isso o tenente, já bêbado e drogado, continua a se embebedar. Dança com uma das mulheres e logo outra se aproxima. Nu, ele cambaleia e chora como uma criança, brinca consigo mesmo como uma criança dançando, chora. Talvez uma ou a melhor seqüência da década, explica, sem palavras e expressivamente, tudo o que o personagem interpretado magnificamente por Harvey Keitel é no filme. O homem durão, imponente, mas sofrido e extremamente sentimental, um homem reprimido por si mesmo e moldado pelo mundo, depressivo e autodestrutivo. A arma do mundo, o sentimento do mundo repressor, a conseqüência da sociedade, da violência e do sofrimento imposto pelos dias que se passam. O ser transformado e completamente transtornado. Um homem morto, mas vivo. Que usa drogas das mais variadas, inclusive o crack, que explora mulheres, paga para o sexo, abusa e impõe-se violentamente sobre todos. O filme “Bad Lieutenant” é um precioso e cuidadoso estudo psicológico sobre o ser humano vivendo na situação extrema da sociedade, convivendo com a mais pura violência e repreensão, jogado e formado pela independência, preso à carne e moralmente destruído, não pelos outros, mas por si mesmo, pelo seu próprio interior ferido e magoado, deprimido, sofrendo e agüentando cada momento da vida, encontrando escapatórias violentas.

É um filme complexo emocionalmente, mas com uma trama bem simples. Harvey Keitel incorpora “O tenente” (o seu personagem não tem nome e é conhecido somente por isso), um homem, policial corrupto que ronda as ruas em busca do que corromper, em busca de drogas e tirar proveito das outras pessoas, ao mesmo tempo em que é atolado de dívidas. O filme já começa com um personagem no meio de sua autocatástrofe psicológica. Viciado em todos os tipos de drogas, em jogos, violento com a família e com todos próximo de si, as prostitutas já o conhecem de tempos e já sabem lidar com ele “amigavelmente”. A trama começa a se desenvolver com base nos jogos de aposta, nesse caso, partidas de beisebol. O que começou com alguns milhares foi se acumulando com a esperança mortal de que irá ganhar em algum momento.
É nessa situação, de depressão e dívidas que o Tenente tem conhecimento de um caso violento de uma freira que fora violentamente estuprada e espancada por duas pessoas. Há uma recompensa para quem achar esses dois indivíduos e é nisso que o Tenente se esforçará para fazer, capturá-los e ganhar a recompensa e assim quitar a dívida. Mas é nessa busca que ele começa a entender seus problemas e sofrer mais ainda por um sentimento presente em muitas pessoas, a depressão por tudo o que passa, por tudo o que sofre, pelo mundo em que vive e pela vida que leva. Uma depressão incompreendida que o leva à pior conseqüência que um ser humano pode sofrer e um sofrimento prolongado de repreensão dos sentimentos pessoais se instala gerando o prazer ou o vício pela autodestruição. O “vício frenético” ao qual o título brasileiro se refere talvez seja com uma intenção mais superficial, mas que não deixa de se encaixar no que o filme guarda de mais íntimo e no que o personagem vive mais profundamente. Um vício autodestrutivo. As drogas, a prostituição, o abuso de poder, tudo uma válvula de escape para todos os traumas e dificuldades que sofre em seu cotidiano. A violência que ele cria ao seu redor, a vontade de apostar incansavelmente com uma angustiante esperança negativa de que irá ganhar um dia. Angústia, esse é um dos principais sentimentos que o filme proporciona ao espectador que assiste ao apocalipse de um ser humano conturbado.
Talvez tudo o que ele sinta seja uma forma de chamar a atenção, como uma criança quando infeliz e angustiada faz, quebra seus brinquedos e faz birra. Mas, agora, adulto e com uma reputação, uma imagem, tudo se complica, se torna mais complexo e nada se resolve rapidamente, assim como poucas pessoas compreendem o que o próximo sente. A vergonha de se desabafar, de se abrir, de aliviar a dor que é acumulado em seu interior culmina numa destruição contínua que acaba com uma pessoa. O mundo é um lugar na maioria das vezes repressor e o Tenente vive num dos lugares menos propícios para conflitos internos e sentimentalismos.

Somos então obrigados a presenciar a sua destruição quase completa, a quase morte do personagem e obrigados a vê-lo aliviar seu corpo numa cena chocante numa igreja, que soa surreal, mas é tamanha assustadora que nos chocamos ao notar o que acontece. São duas as cenas que fazem desse filme uma obra-prima do cinema: a já contada no início e a perto do final, onde o desabafo acontece. Ambas com cargas emotivas pesadas e tensas em todo o momento, não há alívio para nós espectadores, somente angústia e ainda sim sentimos que dentro daquele ser ainda há muita angústia que precisa ser aliviada. Talvez essa seqüência de “redenção” seja uma das mais puras filmadas e a mais forte de todo filme.


Uma das obras mais puras e sentimentais do cinema, pode ser exagero da minha parte para muitos, mas é simplesmente magnífico o trabalho com o ator Harvey Keitel. Keitel tem um desempenho incomum e incrivelmente magistral nesse filme revelando ser um dos melhores atores de todos os tempos numa das melhores atuações de todos os tempos. Abel Ferrara confirma então, nessa década de ouro para ele, como um dos diretores mais influentes e talentosos do cinema.

Em 2009 foi lançada uma espécie de refilmagem deste filme com Nicolas Cage no papel principal que, de tão diferente, não se pode ser comparado e talvez nem classificado como refilmagem.





Avaliação: 10/10

Por Pedro Ruback

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