segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Serbian Film - Terror Sem Limites

Srpski film (2010)
Dirigido por Srđan Spasojević, com Srđan Spasojević, Sergej Trifunović, Jelena Gavrilović, Slobodan Beštić, Katarina Žutić, Ana Sakić, Lena Bogdanović, Luka Mijatović e Anđela Nenadović.


Palavras-chave: sadismo, pornografia, violência


As informações já foram previamente jogadas na mídia: “Srpski film é o filme mais chocante de todos os tempos”, “o filme mais pesado da década”, “não assistam”, etc, motivou sites e blogs a fazerem listas com os filmes mais fortes e que todos devem manter distância, sendo que Srpski film sempre está no topo da lista. Essa superprodução foi lançada em diversos festivais e a reação das pessoas foi simplesmente chocar-se pelas cenas de teor cruel extremo e, mesmo assim, roda pelo mundo em exibições em salas de cinema, a versão censurada, com dezenas de cortes (49 cenas, totalizando 4 minutos e onze segundos) para poder conseguir chegar a um nível onde possa ser exibido nas salas de cinema e ser comercializado em DVD.

A polêmica foi lançada, descrições das pessoas que viram este filme são demasiadamente encontradas, o número de pessoas revoltadas com a violência extrema apresentada no filme é grande. Mas e aí? O que se fazer perante a isso? Srpski film é surpreendente. Joga na cara do expectador o quão podem as pessoas serem hipócritas diante da violência gráfica do filme e, com certeza, por isso, o filme soe mal compreendido pela mídia.




Srpski film dá um tapa na cara do cinema comercial que explora, não só o sexo extremo, como a violência extrema em busca de público e dinheiro, um retorno mórbido que obviamente alimenta as indústrias que trabalham com o gênero. Não só o cinema de horror extremo é foco, como a própria indústria pornográfica que explora os limites de seus “atores” para criar situações cada vez mais escatológicas, absurdas e doentias a meio de estimular a mente dos expectadores de forma que fiquem no mínimo curiosos mediante aquilo que assistem. Mas Srpski film acerta também onde mais dói. As pessoas gostam, procuram, fazem filmes denominados “snuff”. Snuff é o tipo de filme onde, depois de torturas sexuais, há a execução de um dos indivíduos, a vítima, geralmente do sexo feminino. As pessoas querem ver isso, elas sonham com o submundo pornográfico e quem sabe os filmes snuffs realmente não existam? O sexo com amor já não sacia a sede de perversão, deve-se haver fetiches, ferramentas, violência, ousadia para que tudo saia do monótono, alimentando cada vez mais a intensa sede de prazer sem limites que muitos seres humanos sentem.

Spasojevic, o diretor, deixo claro numa entrevista sua real proposta, não de apenas criticar o cinema, mas de criticar o próprio país: "This is a diary of our own molestation by the Serbian government... It's about the monolithic power of leaders who hypnotize you to do things you don't want to do. You have to feel the violence to know what it's about." O foco interessante dele também pode ser aproveitado para expressar a revolta de muitas pessoas sobre seus países, a própria indústria cinematográfica, os limites e controles que a sociedade e a mídia impõem às pessoas.

Sprski Film conta a história de um ator decadente da indústria pornográfica, Milos, que constituiu família e passa por dificuldades. Ele tem um filho, uma bela esposa e uma boa casa, mas é incapaz de conseguir outro emprego até que uma amiga conta-lhe sobre um cineasta que quer contratá-lo para um projeto milionário e que pode lhe tirar do sufoco em que vive. Pode ser clichê e soar completamente fraco, mas desde o início do filme vemos o potencial que ele tem. O filho de Milos é apresentado vendo um filme pornô de seu pai que ele pegou na estante de casa e, sem entender o que está acontecendo. Seus pais retiram o filme logo que o vêem tentando convencer o filho de que tudo ali é uma brincadeira “do papai com uma amiga”.

Não, Sprski Film não é um filme fácil. A grosseira violência gráfica do filme pode facilmente encobrir a proposta que passa, forte e densa. Srdjan Spasojevic, diretor e protagonista do filme, parece chamar todo mundo envolvido no ramo pornô/terror/extremo de idiota e apresenta tudo aquilo que todos querem ver da forma mais doentia possível, sem exagerar em certos aspectos, se não soaria gratuito. Sprski Film não é um filme gratuito, tudo está lá porque tem que estar, a crítica está clara, é como se intencionalmente Srdjan se rebaixasse ao nível dos filmes que ele critica para poder em fim atingir o órgão vital.


Mesmo assim, o filme consegue deixar o espectador mal. As cenas variam entre o sexo atenuado apresentado de cinco em cinco minutos, sendo este vulgar somente quando se propõe e deve ser vulgar, e a violência. O sexo entre Milos e sua esposa não passa de sexo puro com amor, mesmo quando ela pergunta a ele “você nunca pensou apenas em me foder?” enquanto assistiam a um filme pornô que ele fez há muito tempo e ele dizia “com você eu faço amor e com elas eu apenas fodo”. E então ele deixa claro para ela, fisicamente, que a sensação do filme pornô não é uma sensação agradável.

A violência no filme é feita para revoltar, chocar, essa é a intenção. Um homem mascarado amarra uma mulher grávida, retira seu bebê e faz sexo com ele. Outro homem mascarado é apresentado, depois de arrancar todos os dentes de uma mulher, forçando ela a fazer sexo oral nele e tampando o nariz dela sufocando-a e a matando. A forma como tudo aquilo é conduzido faz mais com que sintamos revolta à simplesmente nojo ou vontade de sair da sala (ou desligar o filme), uma atitude extremamente hipócrita da parte do expectador que se dispõe a assistir um filme desses.

Até a metade do filme, tudo soa linear e padrão, mas é depois que ele acorda em sua casa, cheio de ferimentos e sem entender muito que vemos a narrativa do filme começar a ficar mais interessante. Frenético, o filme alterna em momentos em que ele se lembra de flashs do que acontecera e quando ele pega uma câmera com vários tapes e começa a vê-los. O filme vai, daí para frente, apresentando os limites da mente humana, não poupando o expectador de detalhes. Há apenas um momento claro do filme que deixa visível sua proposta crítica, e ele se encontra nos ápices. O melhor de tudo é que nada é jogado na nossa cara esclarecendo tudo o que devemos entender, apenas fica no ar a compreensão pessoal do filme.

Sprski Film tem qualidades de filmes com grandes orçamentos, tudo é muito bem feito, filmado e o diretor não se limita a cenários mal feitos, é uma espécie de gore anti-trash que convence muito. Não digo que é um filme que deva ser visto por todos, mas por aqueles que se disponham a assistir sabendo o que vão ver para não mancharem a imagem do filme como fazem aos montes pela internet. Pode sim, ser considerado um dos filmes mais pesados da história, ao lado de Subconscious Cruelty, mas seria melhor se o figurassem no hall dos importantes, como Salò o le 120 giornate di Sodoma, Irréversible, Ex Drummer e Antichrist.


O filme consegue, mesmo com todos os seus recursos e boa narrativa, não trazer nada de realmente novo para o cinema, fora sua já clara ousadia. Ver um filme desse só se for pelo que eu já disse, sua profundesa crítica e, de outra forma qualquer é inútil ainda mais quando o expectador é fundamentado pelas opiniões alheias que destroem o filme como Magno Malta falou mesmo sem ter visto o filme (ridículo). O filme também consegue se propor nulo em qualquer tipo de apologia. Os estupros estão lá, a violência, o prazer insano dos atores, mas nunca julga e muito menos faz diretamente com que o expectador sinta prazer no que está vendo, já que o filme é narrado do ponto de vista de Milos, o ator pronô que se volta contra tudo aquilo. Os moralismos estão camufladamente presentes e não comprometem a história, fazendo-a fluir livremente.

A recomendação segue alertando o nível do filme e, fica a julgamento de cada um assistir ou não. Está rolando a polêmica de que o Brasil seria o primeiro país a exibir o filme sem cortes (com 104 minutos) nos cinemas, mas foi proibido há pouco tempo. Agora é torcer para que algo seja feito já que a censura é o pior mal da raça humana, algo hipócrita e que visa o controle do que as pessoas vêem sem nem mesmo raciocinarem sobre o quão inútil e ruim é a censura vendo que ela só colabora para o interesse do público que, de acordo com eles, deveriam se manter distante do filme (menores de 18 anos). Uma pessoa verá de acordo com o grau de maturidade, não há cabimento proibir alguém de ver um filme, se quiserem simplesmente fazem o download da versão completa pela internet, que é a coisa mais fácil do mundo. E que falso moralismo é esse que proíbe um FILME ser exibido enquanto, na tv aberta, vemos banhos de sangue, espancamentos, pessoas reais vivendo horrores no mundo e, além do mais, sobre o sensacionalismo das emissoras. Pensemos.




Avaliação: 8/10

Por Pedro Ruback

sábado, 9 de julho de 2011

Aguardem

ESPECIAL DE HALLOWEEN


MINHA AUSÊNCIA DO BLOG NÃO FOI ESQUECIMENTO. NO MÊS DE AGOSTO HAVERÁ UM ESPECIAL DE HALLOWEEN COM MATÉRIAS, CRÍTICAS DE FILMES, CONTOS E OUTROS COMO GALERIAS DE IMAGENS.




ENQUANTO ISSO, APRECIAM ESSAS MÚSICAS









quarta-feira, 15 de junho de 2011

Angst

Angst (1983)
Dirigido por Gerald Kargl, com Erwin Leder, Silvia Rabenreither, Edith Rosset, Rudolf Götz, Renate Kastelik e Robert Hunger-Bühler.


Palavras-chave: psicopata



Angst é a prova de que cinema pode muito bem tratar de temas reais com realismo, sem exageros e sem afetações comuns da indústria cinematográfica, não apenas de uma indústria, mas do meio, um meio que, de certa forma, limita aqueles que são influenciados por outros diretores e têm certa dificuldade de dar toques originais à suas obras por meio do padrão já sugerido na história da arte cinematográfica. Ainda que haja exemplos fantásticos do cinema original em termos de variações estilísticas e variações no comportamento da câmera sobre o cenário e os atores, como Gaspar Noé ("Irréversible", 2004) e Béla Tarr ("Sátántangó", 1994), é difícil encontrarmos uma fusão da proposta do realismo na tela sem usar de táticas mais cruas e sem certo diferencial (o que não quer dizer que sejam ruins, muito pelo contrário) como a câmera estática ou distante da ação como em diversos casos, usando pouca edição para chocar em cenas chaves de filmes que propões realismo sobre aspectos como violência e sexo. Gerald Kargl consegue fundir o chocante e realista com tomadas frenéticas que não dão descanso, muitas vezes com edições rápidas, característica que geralmente atrapalha a experiência. Kargl consegue utilizar a edição de forma positiva, sem exageros e aposta com tudo na proposta do filme, que é reforçada pela sua maestria com a câmera. A filmagem de Kargl é um caso brilhante de originalidade e libertação, sem fronteiras. Sem medo, o diretor abusa de ângulos altos e baixos, distantes, aéreos e pertos. Foge dos padrões, evita o máximo a câmera no nível do ator, refletindo, conforme o filme decorre, o estado do protagonista. Nesse caso, o estado mental de um psicopata.

O filme conta a história de um homem que acaba de ser solto da cadeia onde passou quatro anos preso por conta de um assassinato. Ele sai da prisão, se vê na rua, andando a esmo entre carros e indo parar em uma lanchonete. O homem narra sua vida em off enquanto caminha com olhares assustados pelas ruas e olha para as pessoas de forma analítica, pensando e tentando se controlar. Os quatro anos em que esteve preso só fez sua loucura acumular e ele, conscientemente, aguarda pelo momento em que não terá controle de seu corpo e mente e acabará “fazendo de novo”. As moças jovens e belas no balcão, a balconista, o homem lendo jornal, ele não consegue aqui. Levanta-se e continua andando pela cidade, entra num taxi. Ele teme e torce ao mesmo momento pela hora em que ele se aliviará e sentirá, em fim, prazer. Ele tenta matar a motorista do taxi, mas ela logo percebe suas intenções doentias. Ele não tem coragem de prosseguir, foge e acaba encontrando uma casa isolada. Uma enorme casa, sem mobílias. O lugar perfeito. Não demora a que quem mora lá apareça.



Apesar do grande desgaste que o cinema, tanto comercial quanto o não-comercial, exerceu sobre o tema “psicopata”, esse filme mostra que o tema tem muito sobre o que falar e não necessariamente muito o que mostrar. Os psicopatas já foram explorados aos montes, suas motivações, suas perturbações, o que os levou a ser o que são, etc, etc, e conseguiram não tem muita relevância, principalmente no gênero em que se explora mais este tema e estes personagens: o terror. Mas poucas vezes debateu ou então estudou a mentalidade deles. Uma pessoa psicopata é uma pessoa doente, na maioria das vezes não é necessário um trauma passado para torná-las psicopatas, basta apenas uma pré-disposição mental para tal coisa, um impulso interior incontrolável, um descontrole emocional. Psicopatas, assim como viciados em drogas ou pedófilos, não têm controle sobre seus impulsos, levando-os a cometer atos que algumas vezes eles mesmos não aprovam. O que não é o caso do psicopata sem nome desse filme.

Fica claro sua falta de estrutura intelectual e emocional para ele entender que seus atos são coisas danosas e ruins que ele deve evitar. Aqui, o psicopata, por mais que sacie o prazer que deseja, não quer parar, pois a sensação de alegria e paz o envolve de tal forma que ele não se arrepende dos atos cometidos, o levando a querer mais e mais, o que, além de ser uma doença, é muito mais poderoso, se torna uma obsessão. À medida que ele conta sua história em off, nós começamos a conhecê-lo, mesmo que tudo seja muito raso e o foco seja mais em seu estado mental durante seus atos. Ele narra suas sensações enquanto corre, mata, observa pessoas, etc. Isso é o básico do filme, é o que está claro. O diretor então não se limita em criar um personagem completo, ele quer que todos os personagens sejam personagens completos, mesmo que tudo seja narrado sob a visão do psicopata. Quando o protagonista ataca os moradores da casa, logo vemos como cada um que vive ali é, e nada fica muito claro. Percebemos logo que não é exatamente uma família normal. Um homem deficiente mental e físico, uma senhora velha e uma jovem garota. Uma cena em particular chama muito a atenção: quando o psicopata agarra essa garota, ela se excita. Notamos então que não há clichês, o próprio protagonista se questiona sobre os impulsos da jovem. Fica no ar então. O fato de ela não gritar nem reclamar ou buscar socorro deriva de quê? Quem é aquela jovem? Quem são aquelas pessoas? Grande parte do filme foca apenas nessa seqüência onde o psicopata ataca a família e já é o bastante para conseguirmos estudar cada um deles de forma única.



Erwin Leder, o ator que interpreta o psicopata, está brilhante, todas as expressões, de felicidade, medo, raiva, excitação são magnificamente executadas pelo ator. O nervosismo desconfortante que predomina durante toda a projeção, o ritmo acelerado. O filme pode soar corrido, mas não é, reflete, já que segue o psicopata o tempo todo, todas as emoções do personagem, principalmente euforia e de busca pelo prazer desesperadamente e de forma que ele possa ser prolongado e melhor sentido, num pequeno momento de sua vida. Tudo isso faz com que o filme seja mais sufocante, angustiante.

O filme é baseado em fatos reais. O real autor dos assassinatos se chama Werner Kniesek. As narrações em off são citações de reais psicopatas, como a de Peter Kürten, conhecido como Vampiro de Dusseldorf.

Mesmo que sua temática aborde assassinatos em série e haja um horror óbvio no meio de toda a película, “Angst” pode ser classificado como drama e não invoca o horror por meio de exageros, ainda que seja tudo muito cru. É um filme maduro, uma aula de como dirigir um filme fugindo dos padrões, um marco. Excelente filme e, mesmo o diretor tendo dirigido apenas este longa, seu filme já alcança o status de obra-prima, principalmente por abordar o tema de forma humana e lógica.





Avaliação: 9/10



Por Pedro Ruback

domingo, 12 de junho de 2011

Especial - Curtir é Covardia

Por Jonathan Franzen

Duas semanas atrás, substituí meu BlackBerry Pearl, já com três anos de idade, por um BlackBerry Bold, muito mais poderoso. Nem preciso dizer como fiquei impressionado com o quanto a tecnologia avançou em três anos. Mesmo quando não havia ninguém para telefonar ou mandar e-mail, eu queria continuar mexendo no meu novo Bold e sentir a maravilhosa nitidez de sua tela, a movimentação sedosa do seu trackpad, sua chocante velocidade de resposta, a sedutora elegância de seus gráficos.

Em resumo, fiquei apaixonado por meu novo dispositivo. É claro que o dispositivo anterior também tinha despertado em mim uma paixão semelhante; mas, com o passar dos anos, nosso relacionamento perdeu brilho. Surgiu uma série de problemas na minha relação com o Pearl: problemas de confiança, de responsabilidade, de compatibilidade e até, na porção final de nossa história conjunta, algumas dúvidas em relação à própria sanidade do meu Pearl, até que finalmente vi-me obrigado a reconhecer que eu tinha amadurecido e perdido o interesse naquele relacionamento.

Será que preciso destacar o quanto nosso relacionamento era – na ausência de uma extravagante e antropomorfizante projeção segundo a qual meu antigo BlackBerry teria ficado magoado com o esmaecimento do amor que eu sentia por ele – absolutamente unilateral? Permita-me destacá-lo mesmo assim.

Permita-me destacar ainda a frequência absurda com que a palavra “sexy” é usada para descrever os modelos mais recentes de dispositivos eletrônicos; e o quanto as coisas extremamente bacanas que podemos agora fazer com estes dispositivos – como ativá-los por meio de comandos de voz ou usar os dedos espalhando-os sobre a tela do iPhone para aumentar as imagens – pareceriam ser, para as pessoas de cem anos atrás, verdadeiros encantamentos de mágico, gestos de mago; e o quanto recorremos, na tentativa de descrever um relacionamento erótico que esteja funcionando perfeitamente, à metáfora da magia.

Permita-me propor a ideia de que, conforme nossos mercados descobrem e respondem àquilo que os consumidores mais desejam, nossa tecnologia se torna extremamente hábil na criação de produtos que correspondam ao nosso ideal fantasioso de um relacionamento erótico, no qual o objeto amado se entrega por completo sem exigir nada em troca, instantaneamente, fazendo que nos sintamos todo-poderosos, sem criar cenas constrangedoras quando é substituído por um objeto ainda mais sexy, sendo então relegado a uma gaveta.

Falando numa perspectiva mais geral, o objetivo definitivo da tecnologia, a teleologia da techné, é substituir um mundo natural indiferente a nossos desejos – um mundo de furacões e dificuldades e corações partíveis, um mundo de resistência – por outro mundo que responda tão bem a nossos desejos a ponto de ser, com efeito, uma mera extensão do ser. Permita-me sugerir, finalmente, que o mundo do tecnoconsumismo é, portanto, incomodado pelo amor verdadeiro, restando-lhe como única escolha responder perturbando o amor.

Sua primeira linha de defesa é transformar seu inimigo em commodity.

Todos saberão citar seu favorito dentre os nauseabundos exemplos da mercantilização do amor. Eu mencionaria a indústria do casamento, os comerciais de TV que mostram lindas criancinhas e também a prática de oferecer automóveis como presente de Natal, e a particularmente grotesca equação que compara as joias com diamantes à devoção eterna. A mensagem, em cada um dos casos, é bastante clara: se você ama alguém, compre alguma coisa.

Um fenômeno relacionado a esse é a transformação do verbo “curtir” (“like”, em inglês) que, graças ao Facebook, deixa de ser um estado de espírito e passa a ser um ato que desempenhamos com o mouse – deixa de ser um sentimento para virar uma opção de consumo. E curtir é, no geral, o substituto que a cultura comercial oferece para o ato de amar. A característica mais notável de todos os produtos de consumo – e principalmente dos dispositivos eletrônicos e aplicativos – é o fato de terem sido projetados para serem imensamente curtíveis. Esta é, na verdade, a definição de um produto de consumo, em contraste com o produto que é apenas aquilo que é e cujos fabricantes não estão concentrados na possibilidade de o curtirmos ou não. (Estou pensando nos motores a jato, no equipamento de laboratório, na arte e na literatura em suas manifestações mais sérias.)

Mas, se pensarmos nisso em termos humanos, e imaginarmos uma pessoa definida pela ansiedade desesperada de ser curtida, qual é o quadro que vemos? O de uma pessoa sem integridade, descentrada. Em casos mais patológicos, vemos um narcisista – alguém incapaz de tolerar em sua autoimagem as manchas que seriam representadas pela possibilidade de não ser curtida e que portanto busca uma fuga do contato humano ou se dedica a sacrifícios cada vez mais extremos da própria integridade com o intuito de ser curtida.

Curtível. Se uma pessoa dedica sua existência a ser curtível, entretanto, e se adota qualquer máscara bacana que se mostre necessária para atingir tal fim, isso sugere alguém que perdeu a esperança de ser curtido por aquilo que realmente é. E, se formos bem sucedidos na tentativa de manipular os outros e fazê-los nos curtir, será difícil não sentir, em algum nível, um verdadeiro desprezo por tais pessoas, pois caíram no nosso embuste. A pessoa pode ficar deprimida, cair no alcoolismo ou, se estivermos falando de Donald Trump, concorrer à presidência (e depois desistir).

Os produtos tecnológicos de consumo nunca fariam algo tão pouco atraente, pois não são pessoas. Eles são, no entanto, grandes aliados e facilitadores do narcisismo. Além da ansiedade de serem curtidos já incorporada a eles, há também uma ansiedade de causarem boa impressão em nós. Nossas vidas parecem muito mais interessantes quando são filtradas pela interface sexy do Facebook. Somos os astros de nossos próprios filmes, fotografamos incessantemente a nós mesmos, clicamos o mouse e uma máquina confirma a sensação de que estamos no comando. E, já que nossa tecnologia não passa de uma extensão de nós mesmos, não precisamos desprezar seus traços manipuladores como faríamos no caso de pessoas reais. Trata-se de um ciclo interminável. Curtimos o espelho e o espelho nos curte. Ser amigo de uma pessoa significa apenas incluí-la na sua lista particular de espelhos elogiosos.

Talvez eu esteja exagerando um pouco neste caso, só um pouco. Muito provavelmente, você já está cansado de ver as mídias sociais sendo desrespeitadas por cinquentões ranzinzas. Meu objetivo aqui é estabelecer um contraste entre as tendências narcisistas da tecnologia e o problema do amor verdadeiro. Minha amiga Alice Sebold gosta de falar em “amar alguém e se lambuzar”. Ela tem em mente a sujeira que o amor inevitavelmente espalha sobre o espelho de nosso respeito próprio.

O simples fato é que a tentativa de ser perfeitamente curtível é incompatível com os relacionamentos amorosos. Mais cedo ou mais tarde, por exemplo, você se verá numa briga horrível, aos berros, e ouvirá saindo de sua boca palavras que você mesmo não curte nem um pouco, coisas que estilhaçam sua autoimagem de pessoa justa, gentil, bacana, atraente, controlada, divertida e curtível. Alguma coisa mais real do que a curtibilidade surgiu de você e de repente você se vê levando uma vida real.
Subitamente existe uma escolha de verdade a ser feita – não uma falsa escolha de consumidor entre BlackBerry e iPhone, e sim uma pergunta: Será que eu amo esta pessoa? E, para o outro, será que esta pessoa me ama?

Não existe a possibilidade de curtir cada partícula da personalidade de uma pessoa real. É por isso que um mundo de curtição acaba se revelando uma mentira. Mas é possível pensar na ideia de amar cada partícula de uma determinada pessoa. E é por isso que o amor representa tamanha ameaça existencial à ordem tecnoconsumista: ele denuncia a mentira.

Isso não equivale a dizer que o amor envolve apenas as brigas. O amor é questão de empatia ilimitada, nascida de uma revelação feita pelo coração mostrando que outra pessoa é tão real quanto você. E é por isso que o amor, ao menos no meu entendimento, é sempre específico. Tentar amar a toda a humanidade pode ser um empreendimento digno, mas, de um jeito engraçado, isso mantém o foco no eu, no bem estar moral ou espiritual do eu. Ao passo que, para amar uma pessoa específica e identificar-se com as lutas dela como se fossem as suas, é preciso abrir mão de parte de si.

Neste caso, o grande risco envolvido é, sem dúvida, a rejeição. Todos nós podemos suportar momentos em que não somos curtidos, pois existe uma gama virtualmente infinita de curtidores em potencial. Mas expor a totalidade do seu eu, e não apenas a superfície curtível, e com isto ser rejeitado, é algo que pode se revelar insuportavelmente doloroso. A perspectiva geral da dor, a dor da perda, da separação, da morte, é o que torna tão tentadora a ideia de evitar o amor e permanecer em segurança no mundo do curtir.

Ainda assim, a dor machuca, mas não mata. Quando levamos em consideração a alternativa – um sonho anestesiado de autossuficiência, incentivado e aprovado pela tecnologia – a dor emerge como produto natural e indicador natural de que estamos vivos num mundo resistente. Levar uma vida indolor equivale a não viver. Até dizer a si mesmo, “Ah, vou deixar para depois esta história de amor e de dor, talvez para depois dos 30 anos” é como resignar-se a passar 10 anos simplesmente ocupando espaço no planeta e consumindo seus recursos. Resignar-se a ser um consumidor (palavra que emprego no seu sentido mais pejorativo).

Pássaros. Quando estava na faculdade, e por muitos anos depois disto, eu curtia o mundo natural. Eu não o amava, mas sem dúvida o curtia. A natureza pode mesmo ser algo muito belo. E, como eu estava em busca de coisas no mundo que me parecessem erradas, gravitei naturalmente na direção do ambientalismo, pois sem dúvida havia muitas coisas erradas com o meio ambiente. E quanto mais eu olhava para aquilo que estava errado – uma população mundial em explosão, o consumo desenfreado dos recursos naturais, o aumento nas temperaturas globais, a contaminação dos oceanos, o corte das últimas florestas antigas –, mais furioso me tornava.

Finalmente, em meados dos anos 90, tomei conscientemente a decisão de parar de me preocupar com o meio ambiente. Pessoalmente, não havia nada de significativo que eu pudesse fazer para salvar o planeta e, além disso, tinha vontade de seguir na vida me dedicando às coisas que amava. Continuei me esforçando para manter pequena minha “pegada de carbono”, mas esse parecia ser o meu limite antes de recair na raiva e no desespero.

Foi então que me ocorreu algo engraçado. Trata-se de uma história comprida, mas, basicamente, apaixonei-me pelos pássaros. Isto não ocorreu sem uma resistência considerável, pois é muito cafona ser um observador de pássaros, já que qualquer indício que revele uma paixão verdadeira é, por definição, algo cafona. Mas, aos poucos, apesar da relutância, desenvolvi essa paixão e, se metade de uma paixão é a obsessão, a outra metade é o amor.

Bem, devo admitir que mantive uma lista meticulosa das espécies de pássaros que eu já tinha visto e admito também que fiz esforços incomuns em nome da oportunidade de conhecer espécies diferentes. Mas, igualmente importante, sempre que olhava para um pássaro, qualquer pássaro, mesmo uma pomba ou um tordo, eu sentia o coração transbordar de amor. E o amor, como venho tentando expor aqui, é onde começam nossos problemas.

Pois agora, não apenas curtindo a natureza, mas amando uma parte específica e vital dela, eu não tinha escolha a não ser voltar a me preocupar com o meio ambiente. As notícias sobre este assunto não tinham melhorado desde a época em que decidi parar de me importar com elas – eram na verdade consideravelmente piores –, mas agora aquelas florestas e pântanos e oceanos ameaçados não eram mais cenários bonitos dos quais eu poderia desfrutar. Eram o lar de animais que eu amava.

E foi então que um curioso paradoxo emergiu. A raiva e a dor que eu sentia diante da situação do planeta só foram amplificadas por minha preocupação com os pássaros silvestres, mas, conforme eu aprendia sobre a preservação dos pássaros e me envolvia com esse tipo de iniciativa, aprendendo cada vez mais a respeito das ameaças que os pássaros enfrentam, tornou-se mais fácil, e não mais difícil, conviver com a raiva, o desespero e a dor.

Como pode ser uma coisa dessas? Acho que, para começar, meu amor pelos pássaros se tornou um portal para uma parte importante e menos autocentrada de mim, que eu nem mesmo sabia que existia. Em vez de seguir à deriva pela vida de cidadão global, curtindo e descurtindo e guardando meu envolvimento para algum momento posterior, fui obrigado a confrontar uma parte de mim que até então eu tinha de aceitar totalmente ou rejeitar absolutamente.

Exatamente aquilo que o amor faz com uma pessoa. Pois a questão fundamental envolvendo a todos nós é o fato de que vivemos por algum tempo, mas morreremos em breve. Esse fato é a verdadeira causa fundamental de toda a nossa raiva, dor e desespero. E a pessoa pode optar por fugir desse fato ou, por meio do amor, aprender a aceitá-lo. Quando ficamos em nossos quartos e bufamos ou caçoamos ou damos de ombros indiferentemente, como eu fiz durante tantos anos, o mundo e seus problemas parecem impossivelmente desafiadores. Mas, quando saímos e nos colocamos em relacionamentos reais com seres reais, ou mesmo animais reais, há o perigo bastante real de amarmos alguns deles.

E quem pode prever que rumo a vida tomará então?


Tradução de Augusto Calil
Fonte: http://blogs.estadao.com.br/link/curtir-e-covardia/
Texto original: http://www.nytimes.com/2011/05/29/opinion/29franzen.html

terça-feira, 17 de maio de 2011

Do Além

From Beyond, 1986.
Dirigido por Stuart Gordon, com Jeffrey Combs, Bárbara Crampton, Ken Foree, Ted Sorel, Carolyn Purdy-Gordon e Bruce McGuire.


Palavras-chave: experiência, paranóia


Stuart Gordon, mais conhecido pela adaptação “Re-Animator” em 1985 e por suas adaptações de contos e histórias do escritor fantástico Howard Phillips Lovecraft, dirigiu em 1986 esse “From Beyond”, seguindo à risca os moldes do cinema de horror de baixo orçamento da década de 80. Muito barato, quase nada de efeitos especiais, muita maquiagem, muita nojeira, um roteiro nonsense, atuações horríveis e humor negro. Nada mais a declarar, se você leu isso e gosta disso tudo, “From Beyond” é um filme para você.

Mas “From Beyond” se destaca, não só por conter todas as características marcantes de toda uma década de cinema de horror, mas por ter qualidade. O filme é um achado para qualquer amante dessa parte do cinema. É grandiosamente divertido e as péssimas atuações dos personagens só colaboram para que nos tire boas risadas. O climão desse cinema também está aqui, nós percebemos isso logo no início, onde o prólogo lança o mistério no ar como todo bom clichê descompromissado. Esse clichê vem sendo usado de forma irritante desde que o gênero suspense foi inventado, passando por quase todos os tipos de gêneros e sendo utilizado desgastantemente até os dias de hoje.


O filme começa com Crawford Tillinghast (Jeffrey Combs, ator muito conhecido de Gordon que participou de diversos filmes dele, inclusive “Re-Animator”), assistente de um cientista louco e pervertido de nome Edward Pretorius. Mesmo com um pé atrás em relação à experiência que Pretorius está desenvolvendo num aparelho chamado Resonator com o fim de estimular a glândula pineal, considerada a glândula responsável pelo sexto sentido das pessoas, Crawford se desempenha no projeto. Então, com o equipamento finalizado e pronto, resolve testá-lo. Além de funcionar com o propósito certo, o equipamento abre um portal para uma dimensão paralela onde vivem criaturas monstruosas com a capacidade de manipular o ser humano e seus instintos (além de devorarem seus cérebros, mas isso é mero detalhe).

No meio dessa experiência, Crawford chama Pretorius em outra sala dizendo que o equipamento é um sucesso. Não demora para que tudo dê errado e que uma das criaturas arranque a cabeça de Pretorius matando-o então. Louco e considerado culpado pela morte de seu mentor, Crawford é internado com o estado mental alterado, sendo incompreendido por todos com quem tenta conversar. Não é para menos, a história de um experimento louco que abre uma fenda para outra dimensão com seres bizarros é no mínimo duvidosa.


Para dar fôlego à trama, entra em cena uma jovem e bela psiquiatra, a Dra. Katherine (interpretada pela também costumeira atriz de Gordon, Bárbara Crampton e que também participou de “Re-Animator” e outras obras), que se propõe e investigar mais a fundo a história de Crawford acreditando no que ele fala. Agora, médico louco, psicóloga bonitona e um policial durão e com senso cômico vão para a mansão onde ocorreram os fatos para poderem recriar a máquina e investigarem se tudo aquilo é uma história real ou se Crawford é apenas mais um louco insano e psicopata maluco capaz de matar o próprio mentor.

Daí para frente não preciso nem contar o que acontece, é uma enxurrada dos mais divertidos e deliciosos clichês do gênero e da época. A diferença é essa: “From Beyond” é divertido demais, até mesmo aqueles que levam o cinema mais a sério (como eu) podem se surpreender (lê-se PODEM) com o tom do filme. Consegue manter o ritmo acelerado, a curiosidade, fora que os personagens conseguem cativar por serem, de certa forma, excêntricos por mais que previsíveis as situações e suas ações.


Na mesma linha de David Cronenberg, os efeitos especiais são marcados literalmente por maquiagens e mecanismos com muita insanidade, gosmas, melecas e deformidades à torta e a direita (é só excluir o tom crítico do Cronenberg). Por exemplo, uma espécie de antena brota da testa dos personagens, um homem fica completamente deformado a ponto de ter um pescoço enorme, entre outras que você só vai saber se assistir ao filme. De qualquer forma, é o tipo de filme para quem tem estômago. Tem muita qualidade gráfica, é um exemplo na área de maquiagem e na área do terror. Se você for um mais crítico perceberá um disforme estudo da fraqueza humana no filme, o que colabora ainda mais para que valha.

O melhor mesmo é assistir descompromissadamente com tudo. Obrigatório para os fãs do gênero.




Avaliação: 8,5/10


Por Pedro Ruback

sábado, 14 de maio de 2011

Exit Though the Gift Shop

Exit Though The Gift Shop (2010)
Dirigido por Banksy, com Thierry Guetta, Banksy, Shepard Fairey, Wendy Asher, Jay Leno, Space Invader e Deborah Guetta.

Palavras-chave: arte

Esse comentário contém SPOILERS, revelações sobre o filme. De qualquer forma, não comprometerá a diversão de vê lo.


Antes de tudo, o documentário foi dirigido por Banksy e o foco do filme não é Banksy, mas uma figurinha chamada Thierry Guetta, a forma como ele entrou na vida de Banksy e da própria arte de rua e como conseguiu a fama que tem hoje como um artista. Menos focado nas críticas sociais das obras de Banksy ou em qualquer outra crítica social de qualquer outro artista que aparece no filme, Banksy faz seu documentário como forma de expressar sua... ira? Raiva? Não sei se um termo negativo seja apropriado. Mas foi um manifesto contra o Guetta, personagem marcante na vida de Banksy.

Quem é Thierry Guetta? Nem eu o conhecia até assistir a esse documentário. Guetta é um artista de rua francês que começou como cinegrafista. Não bem um cinegrafista, ele tinha obsessão em filmar tudo o que via de forma compulsiva. Desde pequeno, até a então idade adulta, documentando e guardando tudo o que podia, mas sem dar valor algum ao que filmava. Quando terminava de gravar, guardava numa caixa e apenas isso. Às vezes as fitas com os filmes não tinham nome, número ou algo que possibilitasse uma referência. Começou a se envolver com a arte de rua quando resolveu filmar seu primo, o Space Invader, rapaz que fazia espécies de azulejos com o formato dos Space Invader, joguinhos eletrônicos antigos e espalhava essas coisas pela cidade. Nisso, ele começou a se interessar cada vez mais por essa arte que misturava ousadia – pois era proibido espalhar essas coisas em propriedades sem motivo, apenas por espalhar – e talento. Aos poucos foi conhecendo outros artistas à medida que ia viajando com seu primo. Um deles foi Shepard Fairey. Fairey ficou conhecido por um desenho típico, o “André, O Grande”, da tal palavra “Obey” escrita sobre um fundo vermelho abaixo da imagem estilizada do boxeador. Não só essa imagem o deixou famoso, como diversas outras, como a foto de Barack Obama com a palavra “Hope”, com cores distorcidas e vibrantes, como Andy Warhol fez.


Com esse costume de ir a tudo quanto é lugar com os artistas de rua, conhecendo diversos outros artistas e documentando tudo o que via, ia a todos os lugares de diversos paises e conhecia tudo o que se podia conhecer sobre prédios. Guetta não era apenas um cinegrafista que ficava embaixo enquanto os artistas estavam no alto das propriedades, prédios, ele ia até lá e ajudava-os em tudo o que fosse necessário extraindo o máximo de experiência. E foi num dia, em meio à explosão da fama de Banksy, que Guetta foi chamado pelo próprio cara para ajudá-lo em algumas coisas, entre elas, encontrar localizações boas para sua arte, além de documentar tudo.

Banksy ficou reconhecido por colocar sua arte no Muro da Cisjordânia, uma barreira que separa o Estado de Israel dos territórios da Cisjordânia. Polêmico, o muro é um verdadeiro campo de guerra, tanto político quanto físico. Banksy ousou e colocou lá obras de grande valor crítico que mostram crianças pintando um buraco no muro e, do outro lado, uma paisagem paradisíaca. Banksy também ficou mais reconhecido ainda por conseguir colocar, escondido, seus trabalhos de arte em diversos museus, como o Museu de História Natural em Nova York. Um grande sucesso no mundo todo, Banksy passou a ter suas obras de arte leiloadas por pessoas que simplesmente pegavam as obras que estavam expostas e vendiam por preços exorbitantes.

Voltando, Guetta conseguiu uma aproximação tão grande de Banksy que se tornou um amigo fundamental do artista. Porém, Banksy, vendo que Guetta não tinha vocação para o cinema vide um filme que ele fez editando o material que fizera (essa parte no filme é hilária; o tal filme realmente existe), deu a sugestão para que ele tentasse a arte de rua. E foi o que Guetta fez. Mas Guetta não fez tão simplesmente como todos os grandes e reconhecidos artistas de rua fazem, começando pequeno, com protestos e talento, mas ele abriu quase que uma empresa gráfica para seus cartazes, hipotecou a casa e foi ao trabalho, colando seus cartazes e divulgando quase que infantilmente suas obras. E, do nada, resolve fazer sua exposição de arte. Mas havia um fator que não possibilitava tal coisa: Guetta não era reconhecido, pois estava há pouquíssimo tempo no ramo. Mas ele queria começar como os grandes lutaram para conquistar durante anos, Guetta era uma criança a fim de brincar com todo mundo e, infelizmente, insultar os grandes artistas de rua.

O resultado disso? Guetta não tinha estilo próprio, ele era uma mistura de tudo o que via, a maioria de suas obras não tinham significado além de ser pop demais e atrair a curiosidade do público e crítica. Não havia conteúdo crítico, muitas se assemelham às obras de Andy Warhol. Guetta virou um artista muito bem sucedido, porém sem identidade.


Banksy trabalhou 80% do documentário com imagens feitas pela câmera de Thierry Guetta. Desde arquivos pessoais a arquivos de sua experiência com ele. O resultado foi uma película divertida e irritante (o personagem principal é irritante). Além de um documentário bom sobre a vida dos artistas de rua que se espalham e se escondem pelas grandes cidades e, no caso do Banksy, pelo mundo. Banksy, para guardar sua identidade distorce sua voz sempre que fala. Em cenas em que ele aparece sem sua típica máscara de macaco, há um efeito de imagem para granular e, quando está dando entrevista, usa um capuz e também um efeito de sombra é lançado sobre seu rosto.

Eu fui uma vítima da mídia. “O filme do Banksy”, realmente, é um filme feito por ele, mas não é sobre ele, é sobre uma outra pessoa. Foi uma surpresa divertida, apesar da decepção. O foco poderia ter sido mais aprofundado nos temas sérios da arte de Banksy, mas tudo pareceu secundário. De qualquer forma, um grande e divertido filme com grandes momentos, envolve e entretém por toda sua hora e meia.




Avaliação: 8/10


Por Pedro Ruback