quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Oceano

Rola, Oceano profundo e azul sombrio, rola!
Caminham dez mil frotas sobre ti, em vão;
de ruínas o homem marca a terra, mas se evola
na praia o seu domínio. Na úmida extensão
só tu causas naufrágios; não, da destruição
feita pelo homem sombra alguma se mantém,
exceto se, gota de chuva, ele também
se afunda a borbulhar com seu gemido,
sem féretro, sem túmulo, desconhecido.

Do passo do há traços em teus caminhos,
nem são presa teus campos. Ergues-te e o sacodes
de ti; desprezas os poderes tão mesquinhos
que usa para assolar a terra, já que podes
de teu seio atirá-lo aos céus; assim o lanças
tremendo uivando em teus borrifos escarninhos
rumo a seus deuses - nos quais firma as esperanças
de achar um portou angra próxima, talvez -
e o devolves á terra: - jaza aí, de vez.

Os armamentos que fulminam as muralhas
das cidades de pedra - e tremem as nações
ante eles, como os reis em suas capitais - ,
os leviatãs de roble, cujas proporções
levam o seu criador de barro a se apontar
como Senhor do Oceano e árbitro das batalhas,
fundem-se todos nessas ondas tão fatais
para a orgulhosa Armada ou para Trafalgar.

Tuas bordas são reinos, mas o tempo os traga:
Grécia, Roma, Catargo, Assíria, onde é que estão?
Quando outrora eram livres tu as devastavas,
e tiranos copiaram-te, a partir de então;
manda o estrangeiro em praias rudes ou escravas;
reinos secaram-se em desertos, nesse espaço,
mas tu não mudas, salvo no florear da vaga;
em tua fronte azul o tempo não põe traço;
como és agora, viu-te a aurora da criação.

Tu, espelho glorioso, onde no temporal
reflete sua imagem Deus onipotente;
calmo ou convulso, quando há brisa ou vendaval,
quer a gelar o pólo, quer em cima ardente
a ondear sombrio, - tu és sublime e sem final,
cópia da eternidade, trono do Invisível;
os monstros dos abismos nascem do teu lodo;
insondável, sozinho avanças, és terrível.

Amei-te, Oceano! Em meus folguedos juvenis
ir levado em teu peito, como tua espuma,
era um prazer; desde meus tempos infantis
divertir-me com as ondas dava-me alegria;
quando, porém, ao refrescar-se o mar, alguma
de tuas vagas de causar pavor se erguia,
sendo eu teu filho esse pavor me seduzia
e era agradável: nessas ondas eu confiava
e, como agora, a tua juba eu alisava.


Lord Byron
(Tradução de Castro Alves)

Trevas

Eu tive um sonho que não era em todo um sonho
O sol esplêndido extinguira-se, e as estrelas
Vagueavam escuras pelo espaço eterno,
Sem raios nem roteiro, e a enregelada terra
Girava cega e negrejante no ar sem lua;
Veio e foi-se a manhã - Veio e não trouxe o dia;
E os homens esqueceram as paixões, no horror
Dessa desolação; e os corações esfriaram
Numa prece egoísta que implorava luz:
E eles viviam ao redor do fogo; e os tronos,
Os palácios dos reis coroados, as cabanas,
As moradas, enfim, do gênero que fosse,
Em chamas davam luz; As cidades consumiam-se
E os homens juntavam-se junto às casas ígneas
Para ainda uma vez olhar o rosto um do outro;
Felizes enquanto residiam bem à vista
Dos vulcões e de sua tocha montanhosa;
Expectativa apavorada era a do mundo;
Queimavam-se as florestas - mas de hora em hora
Tombavam, desfaziam-se - e, estralando, os troncos
Findavam num estrondo - e tudo era negror.
À luz desesperante a fronte dos humanos
Tinha um aspecto não terreno, se espasmódicos
Neles batiam os clarões; alguns, por terra,
Escondiam chorando os olhos; apoiavam
Outros o queixo às mãos fechadas, e sorriam;
Muitos corriam para cá e para lá,
Alimentando a pira, e a vista levantavam
Com doida inquietação para o trevoso céu,
A mortalha de um mundo extinto; e então de novo
Com maldições olhavam para a poeira, e uivavam,
Rangendo os dentes; e aves bravas davam gritos
E cheias de terror voejavam junto ao solo,
Batendo asas inúteis; as mais rudes feras
Chagavam mansas e a tremer; rojavam víboras,
E entrelaçavam-se por entre a multidão,
Silvando, mas sem presas - e eram devoradas.
E fartava-se a Guerra que cessara um tempo,
E qualquer refeição comprava-se com sangue;
E cada um sentava-se isolado e torvo,
Empanturrando-se no escuro; o amor findara;
A terra era uma idéia só - e era a de morte
Imediata e inglória; e se cevava o mal
Da fome em todas as entranhas; e morriam
Os homens, insepultos sua carne e ossos;
Os magros pelos magros eram devorados,
Os cães salteavam seus donos, exceto um,
Que se mantinha fiel a um corpo, e conservava
Em guarda as bestas e aves e famintos homens,
Até a fome os levar, ou os que caíam mortos
Atraírem seus dentes; ele não comia,
Mas com um gemido comovente e longo, e um grito
Rápido e desolado, e relambendo a mão
Que já não o agradava em paga - ele morreu.
Finou-se a multidão de fome, aos poucos; dois,
Dois inimigos que vieram a encontrar-se
Junto às brasas agonizantes de um altar
Onde se haviam empilhado coisas santas
Para um uso profano; eles a resolveram
E trêmulos rasparam, com as mãos esqueléticas,
As débeis cinzas, e com um débil assoprar
E para viver um nada, ergueram uma chama
Que não passava de arremedo; então alçaram
Os olhos quando ela se fez mais viva, e espiaram
O rosto um do outro - ao ver gritaram e morreram
- Morreram de sua própria e mútua hediondez,
- Sem um reconhecer o outro em cuja fronte
Grafara o nome "Diabo". O mundo se esvaziara,
O populoso e forte era uma informe massa,
Sem estações nem árvore, erva, homem, vida,
Massa informe de morte - um caos de argila dura.
Pararam lagos, rios, oceanos: nada
Mexia em suas profundezas silenciosas;
Sem marujos, no mar as naus apodreciam,
Caindo os mastros aos pedaços; e, ao caírem,
Dormiam nos abismos sem fazer mareta,
mortas as ondas, e as marés na sepultura,
Que já findara sua lua senhoril.
Os ventos feneceram no ar inerte, e as nuvens
Tiveram fim; a escuridão não precisava
De seu auxílio - as trevas eram o Universo.


Lord Byron

(Tradução de Castro Alves)

Uma Taça Feita de Um Crânio Humano

Não recues! De mim não foi-se o espírito...
Em mim verás - pobre caveira fria -
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.

Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!... que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.

Mais vale guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
- Taça - levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do réptil.

Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
...Podeis de vinho o encher!

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.

E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p'ra alguma coisa!...



Lord Byron

(Tradução de Castro Alves)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Como fazer um Halloween de verdade

Primeiro, esqueça ao máximo o dinheiro. O comercial apenas se aproveita de você para pegar seu dinheiro a fim de lucrar com datas comemorativas (pra quê vocês acham que existe Dia dos Pais, Dia das Mães, Dia das Crianças, essas besteiras todas?). Até comemorações religiosas são extremamente comerciais (Natal então... Jesus nem nasceu dia 25). Agora, o fato é que o Halloween é uma data contra a massa, ou pelo menos deve ser contra o popular.


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Um pouco de história (extraída da Wikipédia):

A origem do halloween remonta às tradições dos povos que habitaram a Gália e as ilhas da Grã-Bretanha entre os anos 600 a.C. e 800 d.C., embora com marcadas diferenças em relação às atuais abóboras ou da famosa frase "Gostosuras ou travessuras", exportada pelos Estados Unidos, que popularizaram a comemoração. Originalmente, o halloween não tinha relação com bruxas. Era um festival do calendário celta da Irlanda, o festival de Samhain, celebrado entre 30 de outubro e 2 de novembro e marcava o fim do verão (samhain significa literalmente "fim do verão").

A celebração do Halloween tem duas origens que no transcurso da História foram se misturando:

Origem Pagã
A origem pagã tem a ver com a celebração celta chamada Samhain, que tinha como objetivo dar culto aos mortos. A invasão das Ilhas Britânicas pelos Romanos (46 A.C.) acabou mesclando a cultura latina com a celta, sendo que esta última acabou minguando com o tempo. Em fins do século II, com a evangelização desses territórios, a religião dos Celtas, chamada druidismo, já tinha desaparecido na maioria das comunidades. Pouco sabemos sobre a religião dos druidas, pois não se escreveu nada sobre ela: tudo era transmitido oralmente de geração para geração. Sabe-se que as festividades do Samhain eram celebradas muito possivelmente entre os dias 5 e 7 de novembro (a meio caminho entre o equinócio de verão e o solstício de inverno). Eram precedidas por uma série de festejos que duravam uma semana, e davam ao ano novo celta. A "festa dos mortos" era uma das suas datas mais importantes, pois celebrava o que para nós seriam "o céu e a terra" (conceitos que só chegaram com o cristianismo). Para os celtas, o lugar dos mortos era um lugar de felicidade perfeita, onde não haveria fome nem dor. A festa era celebrava com ritos presididos pelos sacerdotes druidas, que atuavam como "médiuns" entre as pessoas e os seus antepassados. Dizia-se também que os espíritos dos mortos voltavam nessa data para visitar seus antigos lares e guiar os seus familiares rumo ao outro mundo.

Origem Católica
Desde o século IV a Igreja da Síria consagrava um dia para festejar "Todos os Mártires". Três séculos mais tarde o Papa Bonifácio IV († 615) transformou um templo romano dedicado a todos os deuses (Panteão) num templo cristão e o dedicou a "Todos os Santos", a todos os que nos precederam na fé. A festa em honra de Todos os Santos, inicialmente era celebrada no dia 13 de maio, mas o Papa Gregório III († 741) mudou a data para 1º de novembro, que era o dia da dedicação da capela de Todos os Santos na Basílica de São Pedro, em Roma. Mais tarde, no ano de 840, o Papa Gregório IV ordenou que a festa de Todos os Santos fosse celebrada universalmente. Como festa grande, esta também ganhou a sua celebração vespertina ou vigília, que prepara a festa no dia anterior (31 de outubro). Na tradução para o inglês, essa vigília era chamada All Hallow’s Eve (Vigília de Todos os Santos), passando depois pelas formas All Hallowed Eve e "All Hallow Een" até chegar à palavra atual "Halloween".

Etmologia
Posto que, entre o pôr-do-sol do dia 31 de outubro e 1° de novembro, ocorria a noite sagrada (hallow evening, em inglês), acredita-se que assim se deu origem ao nome actual da festa: Hallow Evening → Hallowe'en → Halloween. Rapidamente se conclui que o termo "Dia das bruxas" não é utilizado pelos povos de língua inglesa, sendo essa uma designação apenas dos povos de língua (oficial) portuguesa.

Outra hipótese é que a Igreja Católica tenha tentado eliminar a festa pagã do Samhain instituindo restrições na véspera do Dia de Todos os Santos. Este dia seria conhecido nos países de língua inglesa como All Hallows' Eve.

A relação da comemoração desta data com as bruxas propriamente ditas teria começado na Idade Média no seguimento das perseguições incitadas por líderes políticos e religiosos, sendo conduzidos julgamentos pela Inquisição, com o intuito de condenar os homens ou mulheres que fossem considerados curandeiros e/ou pagãos. Todos os que fossem alvo de tal suspeita eram designados por bruxos ou bruxas, com elevado sentido negativo e pejorativo, devendo ser julgados pelo tribunal do Santo Ofício e, na maioria das vezes, queimados na fogueira nos designados autos-de-fé.

Essa designação se perpetuou e a comemoração do halloween, levada até aos Estados Unidos pelos emigrantes irlandeses (povo de etnia e cultura celta) no século XIX, ficou assim conhecida como "dia das bruxas", uma lenda histórica.



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Voltando, o Halloween pode ser comemorado pela essência, não sejam materialistas! Não há necessidade de enfeitar a casa, comprar doces, se fantasiarem, nem nada disso, isso é apenas uma jogada comercial manipuladora construída para arrancar dinheiro, pois enfia na mente das pessoas que se você não estiver preparado para tal comemoração você será excluído.

Dicas de como se comemorar o Halloween de forma correta eu tenho muitas. Vá até um ponto isolado de sua cidade, cercado por natureza, um pedaço de floresta ou um campo qualquer, acenda uma fogueira e fiquem em volta dela, como num acampamento. Contem histórias, brinquem, leiam livros sobre o tema e procurem pesquisar antes de sair criando histórias de terror sobre bruxas más que assustam vilarejos matando criancinhas! Vamos lá, criem histórias complexas e que sejam essencialmente verdadeiras.

O tema Bruxas é abrangente, pois é polêmico e muito foi explorado na mesma proporção que muito foi encoberto pela religião (que na minha opinião foi o grande mal do mundo). Outra dica de como se "festejar" o Halloween são encenações teatrais, criação de homenagens (filmem e me mande!) ou então uma simples reunião entre amigos num local mais adequado, longe da civilização inquieta. Se parar para pensar, essa data é muito inspiradora, pois consegue fazer a mente viajar, criar e interrogar, pois é da natureza humana a curiosidade.

Um dia dedicado, sozinho, à data também é aproveitável para aqueles que gostam de momentos de isolamento ou que não têm com quem compartilhar (algo extremamente normal nos dias de hoje, infelizmente). Faça com que o dia ou o momento seja aproveitável lendo livros e contos, a internet tem muito a oferecer nesse ponto (mas eu digo: não passe o dia na frente do computador lendo, dê um jeito de conseguir ir a algum lugar melhor aproveitável e com melhor clima para isso).

Se os enfeites forem problemas ou consigam dar um clima mais "divertido" ou mais dinâmico ao dia (à festa ou ao próprio isolamento), aproveite o pouco e o simples ao máximo, pois dá um toque mais criativo, pois a falta de recursos faz com que a pessoa aproveite melhor o pouco à sua volta e muitas vezes coisas geniais surgem. A própria abóbora de Halloween é uma boa pedida. O próprio "sujo" dá um toque mais rústico e realista que coisas artificiais demais.

A dica é não gastar dinheiro e aproveitar a essência da data com alimento intelectual e uma diversão sincera com os amigos (essa diversão depende de cada um, cada um dará seu toque e cada um comemorará do seu jeito).






UM EXCELENTE HALLOWEEN PARA OS VERDADEIROS
IGNOREM OS QUE NÃO ENTENDEM

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Especial de Halloween - Conto "Nuvens"

Abrindo o mês do Halloween, segue o primeiro conto do mês sobre o tema chamado Nuvens.



O sol se levantou naquele dia. Tudo estava coberto de nuvens brancas e com variações para o cinza e cinza escuro. Um dia entristecido, mas não triste. O sol, escondido atrás das nuvens não deixa de iluminar o solo, mas as pessoas não compreendem, dizem que não há sol hoje. Dentro de um campo aberto cercado por uma plantação de abóboras, e distante da cidade grande e de até mesmo o subúrbio, encontra-se uma casa velha, com marcas de mofo e da chuva que em alguns dias aterroriza o telhado sujo pelos dias de ventania e sol, que suja as paredes, provavelmente brancas algum dia estiveram, agora esverdeadas e em muitos locais, negro. Perto do solo coberto de grama verde encontra-se a maior concentração de fungos fedidos e é onde o mofo também ataca. Talvez, quando a casa vier a ruir, começará por baixo.

Não há luz, como na maioria das casas em fazendas distantes. Isso faz prevalecer a cultura e a sensação de antiguidade ou passado para um ser saudosista. Ou então pouco o indivíduo se preocupou com isso algum dia. Talvez sim, talvez não, como sempre. De longe mal se pode observar o que ronda aquela casa, o que aquele homem que tem uma plantação enorme de abóboras faz quando não está apreciando sua criação. Pelo tamanho da casa, qualquer um chuta o básico, talvez sem banheiro. Nenhuma sombra cercava o local, nem nenhum local, naquele dia podia-se ver melhor o interior da casa, ainda que seja impossível dizer o que aquele velho homem fazia lá dentro. Mesmo que não seja de interesse algum de ninguém que tenha o mínimo de ocupação ou preocupação com o que está querendo fazer da vida. As crianças que rondam o local na noite do Halloween fazem baderna e bagunça, destroem abóboras, sujam a casa, enquanto esta resiste bravamente. O velho nunca se manifesta, parece manter-se em plena paz no interior da casa enquanto é atacado. Interessante perceber que o velho tem como rotina, não se isolar do mundo, mas viver da melhor forma possível, ainda que seja sozinho, solitariamente e, provavelmente, saudavelmente. Abre as janelas de madeira de sua casa ao máximo deixando o ar da manhã entrar e sai, depois de um tempo, para sua plantação, com um ancinho em mãos, apoiado em seu ombro como um caçador clássico de filmes de terror que andam com suas armas sobre os ombros e fazem poses ameaçadoras.

Arqueado, olhar distante, sobrancelhas grossas e grisalhas, pouco cabelo que sai de debaixo de um chapéu de palha redondo e velho. Magricelo, aparentemente fraco e frágil, ainda mais quando faz força para capinar e livrar sua plantação de animais e plantas daninhas. Queixo grande, pescoço comprido, alto, pernas longas, veste-se quase sempre com uma blusa branca que sempre acaba ficando marrom, um macacão curto e envelhecido pelo sol, esbranquiçado. Qualquer um que pare por algum tempo para observá-lo sentirá, sem dúvidas, pena e tristeza daquele indivíduo solitário, que não parece sorrir, apenas manter uma expressão neutra e com uma única forma de escapar de sua vida que é olhando além do horizonte que o cerca, imaginando o que pode haver depois de tudo. Mas será que ele é capaz disso? Será que ele se conforma com a forma como vive?

Do que esse homem sobrevive, o que come? Apenas o que planta ou será que ele tem uma reserva de comida incrível no interior de sua pequena casa? Impossível. Impossível também ele sair para a cidade comprar algo, logo seria notado pelas pessoas a não ser que ele adote uma outra personalidade, se vista de forma vistosa, disfarçando-se para que ninguém suspeite dele, ou simplesmente se vista de uma forma melhor para ir à cidade e não chamar a atenção. Quem se importa. Naquele dia, o chamado “Dia das Bruxas”, o velho não iria sair de casa, ele se manteria de guarda, trancaria tudo com cadeados irrompíveis e torceria, de olhos fechados diante de um crucifixo que suas abóboras sejam poupadas, pelo menos as que ele mais gosta. Óbvio demais, aquele velho tem outros planos. Naquela manhã tranqüila, onde o céu anunciava o humor das pessoas e o que estaria por vir no fim da tarde, início da noite e se prolongaria por toda a madrugada. No fim da tarde e início da noite, as crianças atacam, saem de suas casas com suas sacolas e fantasias pedindo doces, fazendo algazarra e travessuras. No fim da noite os jovens e alguns adultos saem para as festas e bailes ou encontros.

O velho homem saiu de sua casa após abrir as janelas, como sempre faz todos os dias de sua monótona e corriqueira vida. Caminhou pela plantação de abóboras com o ancinho sobre o ombro segurando-o com uma das mãos. Olhar distante e olhar objetivo, ele examinou todas as abóboras que pôde, minuciosamente e delicadamente. Agachou-se quando achou que fosse necessário, quando uma abóbora lhe parecia interessante demais ou perfeita.

Ele agachava e seus joelhos tremiam com o movimento, ele sentia que ia desmoronar, que suas juntas iriam romper-se com seu peso que não era muito. Quando levantava o estalo era ainda mais alto e a dor, pelas várias vezes que repetia tal movimento, era alucinante. Ele e aquele ancinho que, pelo tempo, tinha um aspecto sinistro, enferrujado. Sentiu dor no ombro e trocou de lado trocando também de mão. Às vezes ele repousava sua ferramenta no solo enquanto olhava e tocava, pegava uma abóbora que lhe parecia fabulosa. Ele olhou todo o campo, procurava a abóbora perfeita, peso perfeito, casca grossa e de cor viva. A mais bela das belas abóboras que ele cultivava seria a escolhida. E foi no fim da manhã, quando começou a chuviscar fino e o vento soprar frio que ele encontrou, naquelas centenas de abóboras espalhadas por um vasto campo, ele encontrou sua abóbora perfeita.

Formato perfeito, grande, mas não exagerado, sem gomos excessivos ou rachados ou qualquer deformidade. O talo era perfeito, todo o seu corpo era perfeito, sua espessura e peso. Ele então tirou, de debaixo de sua calça, preso em sua canela, um facão também velho e de aparência medonha que ele nunca havia usado. Puxou e um barulho de corte soou pelo ar, pelo silêncio daquela manhã fria. Desceu precisamente o facão no talo e retirou a abóbora. Levantou-se e não se lembrou de sentir dor, guardou o facão e esqueceu o ancinho no chão. Sem desgrudar os olhos de seu precioso objeto, ele caminhou sem erro, desviando de sua plantação precisamente e entrou em sua casa. A porta fechou-se, mas é impossível dizer se foi realmente ele. Ele adentrou na escuridão de sua casa que agora parecia mais sombria que nunca e mais isolada que nunca. Toda aquela vida simples, pelas próximas horas, sumiu. A casa permaneceu lá, janelas abertas, móveis balançando com o vento que cruzava os cômodos, folhas que se desprendiam das árvores em volta que voavam pelo ar. No início da tarde o tempo fechou, escureceu e ameaçou chover. O vento estava forte, as janelas de madeira da casa chocavam-se nas paredes e uma nas outras.
O uivo natural do vento deixou de ser um belo som e tornou-se um som macabro, uma sinfonia para o que estava acontecendo dentro daquela casa. Por mais que observássemos atentamente de fora, não faríamos idéia do que poderia estar acontecendo. Mas lá estava, sob o tapete de seu pequeno quarto, uma passagem de madeira, simples e gasta. Os móveis de sua casa eram simples, soavam tranqüilos e esquecidos pelo tempo e pelo ser humano, habitado apenas pela natureza morta dos quadros nas paredes e nas flores do tapete escuro. Melancolia é o que se sente ao entrar na casa daquele homem, principalmente quando em um dia desses.

O homem estava silencioso, mas muito ansioso. Seus olhos se fixaram de tal maneira na abóbora que só puderam focar outra coisa quando se encontrou por fim no seu porão escondido, um cômodo da área de sua casa na superfície, não muito grande, mas com mais espaço do que cômodos. Ali ele guardava o que bem queria, como objetos curiosos e antigos, dinheiro, moedas antigas, peles de animais caçados em sua juventude que ele não ousa colocar em sua casa como decoração. O local servia também como oficina, uma oficina há muito esperando para ser usada, mas que nunca foi usada por nunca ter havido motivo para isso. Enquanto o tempo passava, o homem gastava seu tempo lendo livros sobre diversos assuntos que estão empilhados e expostos em uma prateleira que ele classifica em ordem alfabética e por tipo. Nenhum romance, nenhum conto, nenhum entretenimento aparente. O homem se entretinha em ler livros de biologia, ciências, natureza humana, anatomia, plantas e, mais estranhamente, espiritismo, ocultismo bíblico e até mesmo feitiçaria. Mas o que importa coisas tão diferentes? Ele responderia que tudo isso tinha uma ligação tão forte quanto a matéria e a matéria. O espírito e o inconsciente, o consciente, o conhecimento e o desvendamento dos limites físicos do ser humano, do corpo humano e animal, “máquinas” perfeitas e impossíveis de se copiar.

Concentração final, últimos preparos. Ele abriu a abóbora, retirou sua polpa, tudo de forma clássica, até o momento, parecendo ter planos de fazer uma abóbora lanterna de Dia das Bruxas. Sua concentração não permitia sorrisos nem demonstração de emoções. Seu cenho quase sempre franzido, olhos atentos, dessa vez, nunca distantes. Dentes apertados, uns contra os outros dentro da boca fazendo crescer os lados de seu rosto fino e magro. Tudo pronto, no fim ele abriu buracos para os olhos, narinas e boca da abóbora. Um sorriso maligno e um olhar aparentemente tranqüilo. As narinas eram dois triângulos juntos. Por fim ele abriu mais um buraco na parte debaixo da abóbora. Agora só faltava o principal: vida. Ele então injetou dentro de si uma droga que ele fabricara com a mistura de substâncias tóxicas e viciantes. Ele sabia que seria, a partir daquele momento, dependente químico da droga, por isso estocou centenas de doses em um armário mais no fundo no porão.

Ele sentou-se então numa cadeira confortável e ali permaneceu sentindo o efeito fluir pelo seu corpo, membros e sua mente, principalmente. Ele não estava mais lá, o que restava agora é se deixar levar pela sua mente adormecida em estado automático. Com a cabeça pendendo para trás da cadeira, seus braços se mexeram, seu corpo estava de volta, sua mente estava ativa. A droga afetou seu cérebro de tal forma que não há mais tato em sua cabeça, sendo impossível que ele abra os olhos, mova a boca, as únicas ações que ele podia fazer era a respiração, involuntária e automática, além, claro, do coração que pulsava sangue pelo seu corpo.

Seus braços então se estenderam e localizaram as ferramentas finais, muito menores que aquela que ele carregava no ombro e que esquecera na plantação. Com uma serra elétrica cirúrgica, ele passeou pela cabeça careca que antes usava uma peruca sob um chapéu de palha velho. O sangue escorreu e logo retirou o tampo de sua cabeça e colocando de lado como se fosse a casca de uma laranja. Daí para frente foi mais fácil terminar de serrar seu crânio até que todos seus órgãos pendessem em uma bandeja ao lado da cadeira confortável. Todo o sangue que jorrava escorria por seu corpo e caía em uma bacia sob a cadeira. A pressa era involuntária, a preocupação do corpo com a vida do homem enquanto ele estava ausente era visível. A abóbora então foi cortada ao meio, não sobre a face e a nuca, mas dos lados, fazendo então duas partes iguais. A primeira foi posta, costurada então com uma agulha, emendando a carne do pescoço na parte de trás com a pele e a casca laranja da abóbora. O corpo foi então deitado, a cabeça pendeu e os órgãos do crânio puderam ser posicionados. Ali, ligados com o restante do corpo, os apoios foram devidamente colocados para sustentar alguns órgãos que não se sustentariam em meio aos outros órgãos como os olhos. Estes foram mantidos em posição por duas bases de madeira lixadas e envernizadas perfeitamente pelo homem que cravam-se na estrutura da abóbora. A tampa ou a face foi então colocada. A pele do pescoço foi costurada junto com a carne à abóbora como na parte de trás.

Pelos cálculos do homem, a abóbora foi cortada e a polpa foi removida de forma que o espaço que restasse prendesse os órgãos de tal forma que o sangue não escorresse pelos orifícios, mas isso era inevitável e com o tempo, ele pareceria chorar sangue. Com o retorno da consciência, o homem pôde se levantar e sentir-se, não completamente, mas o suficiente para saber que sua dor alucinante o perturbaria e ele necessitaria de doses da mesma droga, mas que não o desligasse do corpo como antes, mas que tirasse o tato dos órgãos do “crânio”. Tomou uma dose e, depois de algum tempo, caminhou para um espelho. Ele via apenas dois triângulos que se misturavam. Não havia mais dentes, apenas uma língua pendente num espaço apertado que servia somente para abrir espaço para sua faringe, para que ingira agora, somente líquidos. Limitações que, para ele, valiam a pena. Não poderia dormir a não ser com drogas alucinógenas, a cada seis horas ou menos deveria usar uma dose da droga que tira toda a sensitividade de sua cabeça, entre outras óbvias coisas.

Seu objetivo não era assustar criancinhas, ele não tinha isso em mente, por mais que isso tenha passado por sua mente uma hora depois da sua cirurgia. Seu objetivo era ser o que mais ama, o que mais o obceca em sua vida, ser uma abóbora pensante, de forma mais infantil, um rei. Mas isso mudou sem a escolha dele. Ao mesmo tempo em que ele não dava escolhas a seu corpo, seu corpo não lhe dava mais escolhas. O que seria o automático? O que o controlava enquanto ele estava longe de seu corpo, mas ligado a ele? À medida que o tempo ia passando, ele percebia que seu corpo se manifestava da mesma forma que quando ele usava a droga pesada, contra a vontade de sua mente. Seu cérebro começou a controlar cada vez menos os movimentos de seu corpo, tudo se tornava muito automático. Isso pode estar acontecendo devido às drogas e sua mente, por mais que não tenha consciência disso, começou a agir de acordo com o que ele se preparou sua vida toda para fazer naquele momento onde se operaria inconsciente. Foi então que ele lembrou e percebeu que processo de gravar tudo e decorar tudo havia passado dos limites e afetou sua vida. Mas, mesmo quando ele não tomava as drogas, ele era incapaz de habitar seu corpo.

Ele estava fora. As crianças estavam vindo, era fim de tarde, seu corpo estava incontrolável. Ele torcia para que seu corpo reagisse da forma como ele reagiu todas as vezes, ou ao menos ele achava que reagia como todas as vezes em que as crianças vinham. Seu preparo psicológico fugiu dos limites. Ele estava fora e algo estava dentro. As crianças chegaram.


Por Pedro Ruback

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Serbian Film - Terror Sem Limites

Srpski film (2010)
Dirigido por Srđan Spasojević, com Srđan Spasojević, Sergej Trifunović, Jelena Gavrilović, Slobodan Beštić, Katarina Žutić, Ana Sakić, Lena Bogdanović, Luka Mijatović e Anđela Nenadović.


Palavras-chave: sadismo, pornografia, violência


As informações já foram previamente jogadas na mídia: “Srpski film é o filme mais chocante de todos os tempos”, “o filme mais pesado da década”, “não assistam”, etc, motivou sites e blogs a fazerem listas com os filmes mais fortes e que todos devem manter distância, sendo que Srpski film sempre está no topo da lista. Essa superprodução foi lançada em diversos festivais e a reação das pessoas foi simplesmente chocar-se pelas cenas de teor cruel extremo e, mesmo assim, roda pelo mundo em exibições em salas de cinema, a versão censurada, com dezenas de cortes (49 cenas, totalizando 4 minutos e onze segundos) para poder conseguir chegar a um nível onde possa ser exibido nas salas de cinema e ser comercializado em DVD.

A polêmica foi lançada, descrições das pessoas que viram este filme são demasiadamente encontradas, o número de pessoas revoltadas com a violência extrema apresentada no filme é grande. Mas e aí? O que se fazer perante a isso? Srpski film é surpreendente. Joga na cara do expectador o quão podem as pessoas serem hipócritas diante da violência gráfica do filme e, com certeza, por isso, o filme soe mal compreendido pela mídia.




Srpski film dá um tapa na cara do cinema comercial que explora, não só o sexo extremo, como a violência extrema em busca de público e dinheiro, um retorno mórbido que obviamente alimenta as indústrias que trabalham com o gênero. Não só o cinema de horror extremo é foco, como a própria indústria pornográfica que explora os limites de seus “atores” para criar situações cada vez mais escatológicas, absurdas e doentias a meio de estimular a mente dos expectadores de forma que fiquem no mínimo curiosos mediante aquilo que assistem. Mas Srpski film acerta também onde mais dói. As pessoas gostam, procuram, fazem filmes denominados “snuff”. Snuff é o tipo de filme onde, depois de torturas sexuais, há a execução de um dos indivíduos, a vítima, geralmente do sexo feminino. As pessoas querem ver isso, elas sonham com o submundo pornográfico e quem sabe os filmes snuffs realmente não existam? O sexo com amor já não sacia a sede de perversão, deve-se haver fetiches, ferramentas, violência, ousadia para que tudo saia do monótono, alimentando cada vez mais a intensa sede de prazer sem limites que muitos seres humanos sentem.

Spasojevic, o diretor, deixo claro numa entrevista sua real proposta, não de apenas criticar o cinema, mas de criticar o próprio país: "This is a diary of our own molestation by the Serbian government... It's about the monolithic power of leaders who hypnotize you to do things you don't want to do. You have to feel the violence to know what it's about." O foco interessante dele também pode ser aproveitado para expressar a revolta de muitas pessoas sobre seus países, a própria indústria cinematográfica, os limites e controles que a sociedade e a mídia impõem às pessoas.

Sprski Film conta a história de um ator decadente da indústria pornográfica, Milos, que constituiu família e passa por dificuldades. Ele tem um filho, uma bela esposa e uma boa casa, mas é incapaz de conseguir outro emprego até que uma amiga conta-lhe sobre um cineasta que quer contratá-lo para um projeto milionário e que pode lhe tirar do sufoco em que vive. Pode ser clichê e soar completamente fraco, mas desde o início do filme vemos o potencial que ele tem. O filho de Milos é apresentado vendo um filme pornô de seu pai que ele pegou na estante de casa e, sem entender o que está acontecendo. Seus pais retiram o filme logo que o vêem tentando convencer o filho de que tudo ali é uma brincadeira “do papai com uma amiga”.

Não, Sprski Film não é um filme fácil. A grosseira violência gráfica do filme pode facilmente encobrir a proposta que passa, forte e densa. Srdjan Spasojevic, diretor e protagonista do filme, parece chamar todo mundo envolvido no ramo pornô/terror/extremo de idiota e apresenta tudo aquilo que todos querem ver da forma mais doentia possível, sem exagerar em certos aspectos, se não soaria gratuito. Sprski Film não é um filme gratuito, tudo está lá porque tem que estar, a crítica está clara, é como se intencionalmente Srdjan se rebaixasse ao nível dos filmes que ele critica para poder em fim atingir o órgão vital.


Mesmo assim, o filme consegue deixar o espectador mal. As cenas variam entre o sexo atenuado apresentado de cinco em cinco minutos, sendo este vulgar somente quando se propõe e deve ser vulgar, e a violência. O sexo entre Milos e sua esposa não passa de sexo puro com amor, mesmo quando ela pergunta a ele “você nunca pensou apenas em me foder?” enquanto assistiam a um filme pornô que ele fez há muito tempo e ele dizia “com você eu faço amor e com elas eu apenas fodo”. E então ele deixa claro para ela, fisicamente, que a sensação do filme pornô não é uma sensação agradável.

A violência no filme é feita para revoltar, chocar, essa é a intenção. Um homem mascarado amarra uma mulher grávida, retira seu bebê e faz sexo com ele. Outro homem mascarado é apresentado, depois de arrancar todos os dentes de uma mulher, forçando ela a fazer sexo oral nele e tampando o nariz dela sufocando-a e a matando. A forma como tudo aquilo é conduzido faz mais com que sintamos revolta à simplesmente nojo ou vontade de sair da sala (ou desligar o filme), uma atitude extremamente hipócrita da parte do expectador que se dispõe a assistir um filme desses.

Até a metade do filme, tudo soa linear e padrão, mas é depois que ele acorda em sua casa, cheio de ferimentos e sem entender muito que vemos a narrativa do filme começar a ficar mais interessante. Frenético, o filme alterna em momentos em que ele se lembra de flashs do que acontecera e quando ele pega uma câmera com vários tapes e começa a vê-los. O filme vai, daí para frente, apresentando os limites da mente humana, não poupando o expectador de detalhes. Há apenas um momento claro do filme que deixa visível sua proposta crítica, e ele se encontra nos ápices. O melhor de tudo é que nada é jogado na nossa cara esclarecendo tudo o que devemos entender, apenas fica no ar a compreensão pessoal do filme.

Sprski Film tem qualidades de filmes com grandes orçamentos, tudo é muito bem feito, filmado e o diretor não se limita a cenários mal feitos, é uma espécie de gore anti-trash que convence muito. Não digo que é um filme que deva ser visto por todos, mas por aqueles que se disponham a assistir sabendo o que vão ver para não mancharem a imagem do filme como fazem aos montes pela internet. Pode sim, ser considerado um dos filmes mais pesados da história, ao lado de Subconscious Cruelty, mas seria melhor se o figurassem no hall dos importantes, como Salò o le 120 giornate di Sodoma, Irréversible, Ex Drummer e Antichrist.


O filme consegue, mesmo com todos os seus recursos e boa narrativa, não trazer nada de realmente novo para o cinema, fora sua já clara ousadia. Ver um filme desse só se for pelo que eu já disse, sua profundesa crítica e, de outra forma qualquer é inútil ainda mais quando o expectador é fundamentado pelas opiniões alheias que destroem o filme como Magno Malta falou mesmo sem ter visto o filme (ridículo). O filme também consegue se propor nulo em qualquer tipo de apologia. Os estupros estão lá, a violência, o prazer insano dos atores, mas nunca julga e muito menos faz diretamente com que o expectador sinta prazer no que está vendo, já que o filme é narrado do ponto de vista de Milos, o ator pronô que se volta contra tudo aquilo. Os moralismos estão camufladamente presentes e não comprometem a história, fazendo-a fluir livremente.

A recomendação segue alertando o nível do filme e, fica a julgamento de cada um assistir ou não. Está rolando a polêmica de que o Brasil seria o primeiro país a exibir o filme sem cortes (com 104 minutos) nos cinemas, mas foi proibido há pouco tempo. Agora é torcer para que algo seja feito já que a censura é o pior mal da raça humana, algo hipócrita e que visa o controle do que as pessoas vêem sem nem mesmo raciocinarem sobre o quão inútil e ruim é a censura vendo que ela só colabora para o interesse do público que, de acordo com eles, deveriam se manter distante do filme (menores de 18 anos). Uma pessoa verá de acordo com o grau de maturidade, não há cabimento proibir alguém de ver um filme, se quiserem simplesmente fazem o download da versão completa pela internet, que é a coisa mais fácil do mundo. E que falso moralismo é esse que proíbe um FILME ser exibido enquanto, na tv aberta, vemos banhos de sangue, espancamentos, pessoas reais vivendo horrores no mundo e, além do mais, sobre o sensacionalismo das emissoras. Pensemos.




Avaliação: 8/10

Por Pedro Ruback