terça-feira, 30 de agosto de 2011

Como fazer um Halloween de verdade

Primeiro, esqueça ao máximo o dinheiro. O comercial apenas se aproveita de você para pegar seu dinheiro a fim de lucrar com datas comemorativas (pra quê vocês acham que existe Dia dos Pais, Dia das Mães, Dia das Crianças, essas besteiras todas?). Até comemorações religiosas são extremamente comerciais (Natal então... Jesus nem nasceu dia 25). Agora, o fato é que o Halloween é uma data contra a massa, ou pelo menos deve ser contra o popular.


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Um pouco de história (extraída da Wikipédia):

A origem do halloween remonta às tradições dos povos que habitaram a Gália e as ilhas da Grã-Bretanha entre os anos 600 a.C. e 800 d.C., embora com marcadas diferenças em relação às atuais abóboras ou da famosa frase "Gostosuras ou travessuras", exportada pelos Estados Unidos, que popularizaram a comemoração. Originalmente, o halloween não tinha relação com bruxas. Era um festival do calendário celta da Irlanda, o festival de Samhain, celebrado entre 30 de outubro e 2 de novembro e marcava o fim do verão (samhain significa literalmente "fim do verão").

A celebração do Halloween tem duas origens que no transcurso da História foram se misturando:

Origem Pagã
A origem pagã tem a ver com a celebração celta chamada Samhain, que tinha como objetivo dar culto aos mortos. A invasão das Ilhas Britânicas pelos Romanos (46 A.C.) acabou mesclando a cultura latina com a celta, sendo que esta última acabou minguando com o tempo. Em fins do século II, com a evangelização desses territórios, a religião dos Celtas, chamada druidismo, já tinha desaparecido na maioria das comunidades. Pouco sabemos sobre a religião dos druidas, pois não se escreveu nada sobre ela: tudo era transmitido oralmente de geração para geração. Sabe-se que as festividades do Samhain eram celebradas muito possivelmente entre os dias 5 e 7 de novembro (a meio caminho entre o equinócio de verão e o solstício de inverno). Eram precedidas por uma série de festejos que duravam uma semana, e davam ao ano novo celta. A "festa dos mortos" era uma das suas datas mais importantes, pois celebrava o que para nós seriam "o céu e a terra" (conceitos que só chegaram com o cristianismo). Para os celtas, o lugar dos mortos era um lugar de felicidade perfeita, onde não haveria fome nem dor. A festa era celebrava com ritos presididos pelos sacerdotes druidas, que atuavam como "médiuns" entre as pessoas e os seus antepassados. Dizia-se também que os espíritos dos mortos voltavam nessa data para visitar seus antigos lares e guiar os seus familiares rumo ao outro mundo.

Origem Católica
Desde o século IV a Igreja da Síria consagrava um dia para festejar "Todos os Mártires". Três séculos mais tarde o Papa Bonifácio IV († 615) transformou um templo romano dedicado a todos os deuses (Panteão) num templo cristão e o dedicou a "Todos os Santos", a todos os que nos precederam na fé. A festa em honra de Todos os Santos, inicialmente era celebrada no dia 13 de maio, mas o Papa Gregório III († 741) mudou a data para 1º de novembro, que era o dia da dedicação da capela de Todos os Santos na Basílica de São Pedro, em Roma. Mais tarde, no ano de 840, o Papa Gregório IV ordenou que a festa de Todos os Santos fosse celebrada universalmente. Como festa grande, esta também ganhou a sua celebração vespertina ou vigília, que prepara a festa no dia anterior (31 de outubro). Na tradução para o inglês, essa vigília era chamada All Hallow’s Eve (Vigília de Todos os Santos), passando depois pelas formas All Hallowed Eve e "All Hallow Een" até chegar à palavra atual "Halloween".

Etmologia
Posto que, entre o pôr-do-sol do dia 31 de outubro e 1° de novembro, ocorria a noite sagrada (hallow evening, em inglês), acredita-se que assim se deu origem ao nome actual da festa: Hallow Evening → Hallowe'en → Halloween. Rapidamente se conclui que o termo "Dia das bruxas" não é utilizado pelos povos de língua inglesa, sendo essa uma designação apenas dos povos de língua (oficial) portuguesa.

Outra hipótese é que a Igreja Católica tenha tentado eliminar a festa pagã do Samhain instituindo restrições na véspera do Dia de Todos os Santos. Este dia seria conhecido nos países de língua inglesa como All Hallows' Eve.

A relação da comemoração desta data com as bruxas propriamente ditas teria começado na Idade Média no seguimento das perseguições incitadas por líderes políticos e religiosos, sendo conduzidos julgamentos pela Inquisição, com o intuito de condenar os homens ou mulheres que fossem considerados curandeiros e/ou pagãos. Todos os que fossem alvo de tal suspeita eram designados por bruxos ou bruxas, com elevado sentido negativo e pejorativo, devendo ser julgados pelo tribunal do Santo Ofício e, na maioria das vezes, queimados na fogueira nos designados autos-de-fé.

Essa designação se perpetuou e a comemoração do halloween, levada até aos Estados Unidos pelos emigrantes irlandeses (povo de etnia e cultura celta) no século XIX, ficou assim conhecida como "dia das bruxas", uma lenda histórica.



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Voltando, o Halloween pode ser comemorado pela essência, não sejam materialistas! Não há necessidade de enfeitar a casa, comprar doces, se fantasiarem, nem nada disso, isso é apenas uma jogada comercial manipuladora construída para arrancar dinheiro, pois enfia na mente das pessoas que se você não estiver preparado para tal comemoração você será excluído.

Dicas de como se comemorar o Halloween de forma correta eu tenho muitas. Vá até um ponto isolado de sua cidade, cercado por natureza, um pedaço de floresta ou um campo qualquer, acenda uma fogueira e fiquem em volta dela, como num acampamento. Contem histórias, brinquem, leiam livros sobre o tema e procurem pesquisar antes de sair criando histórias de terror sobre bruxas más que assustam vilarejos matando criancinhas! Vamos lá, criem histórias complexas e que sejam essencialmente verdadeiras.

O tema Bruxas é abrangente, pois é polêmico e muito foi explorado na mesma proporção que muito foi encoberto pela religião (que na minha opinião foi o grande mal do mundo). Outra dica de como se "festejar" o Halloween são encenações teatrais, criação de homenagens (filmem e me mande!) ou então uma simples reunião entre amigos num local mais adequado, longe da civilização inquieta. Se parar para pensar, essa data é muito inspiradora, pois consegue fazer a mente viajar, criar e interrogar, pois é da natureza humana a curiosidade.

Um dia dedicado, sozinho, à data também é aproveitável para aqueles que gostam de momentos de isolamento ou que não têm com quem compartilhar (algo extremamente normal nos dias de hoje, infelizmente). Faça com que o dia ou o momento seja aproveitável lendo livros e contos, a internet tem muito a oferecer nesse ponto (mas eu digo: não passe o dia na frente do computador lendo, dê um jeito de conseguir ir a algum lugar melhor aproveitável e com melhor clima para isso).

Se os enfeites forem problemas ou consigam dar um clima mais "divertido" ou mais dinâmico ao dia (à festa ou ao próprio isolamento), aproveite o pouco e o simples ao máximo, pois dá um toque mais criativo, pois a falta de recursos faz com que a pessoa aproveite melhor o pouco à sua volta e muitas vezes coisas geniais surgem. A própria abóbora de Halloween é uma boa pedida. O próprio "sujo" dá um toque mais rústico e realista que coisas artificiais demais.

A dica é não gastar dinheiro e aproveitar a essência da data com alimento intelectual e uma diversão sincera com os amigos (essa diversão depende de cada um, cada um dará seu toque e cada um comemorará do seu jeito).






UM EXCELENTE HALLOWEEN PARA OS VERDADEIROS
IGNOREM OS QUE NÃO ENTENDEM

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Especial de Halloween - Conto "Nuvens"

Abrindo o mês do Halloween, segue o primeiro conto do mês sobre o tema chamado Nuvens.



O sol se levantou naquele dia. Tudo estava coberto de nuvens brancas e com variações para o cinza e cinza escuro. Um dia entristecido, mas não triste. O sol, escondido atrás das nuvens não deixa de iluminar o solo, mas as pessoas não compreendem, dizem que não há sol hoje. Dentro de um campo aberto cercado por uma plantação de abóboras, e distante da cidade grande e de até mesmo o subúrbio, encontra-se uma casa velha, com marcas de mofo e da chuva que em alguns dias aterroriza o telhado sujo pelos dias de ventania e sol, que suja as paredes, provavelmente brancas algum dia estiveram, agora esverdeadas e em muitos locais, negro. Perto do solo coberto de grama verde encontra-se a maior concentração de fungos fedidos e é onde o mofo também ataca. Talvez, quando a casa vier a ruir, começará por baixo.

Não há luz, como na maioria das casas em fazendas distantes. Isso faz prevalecer a cultura e a sensação de antiguidade ou passado para um ser saudosista. Ou então pouco o indivíduo se preocupou com isso algum dia. Talvez sim, talvez não, como sempre. De longe mal se pode observar o que ronda aquela casa, o que aquele homem que tem uma plantação enorme de abóboras faz quando não está apreciando sua criação. Pelo tamanho da casa, qualquer um chuta o básico, talvez sem banheiro. Nenhuma sombra cercava o local, nem nenhum local, naquele dia podia-se ver melhor o interior da casa, ainda que seja impossível dizer o que aquele velho homem fazia lá dentro. Mesmo que não seja de interesse algum de ninguém que tenha o mínimo de ocupação ou preocupação com o que está querendo fazer da vida. As crianças que rondam o local na noite do Halloween fazem baderna e bagunça, destroem abóboras, sujam a casa, enquanto esta resiste bravamente. O velho nunca se manifesta, parece manter-se em plena paz no interior da casa enquanto é atacado. Interessante perceber que o velho tem como rotina, não se isolar do mundo, mas viver da melhor forma possível, ainda que seja sozinho, solitariamente e, provavelmente, saudavelmente. Abre as janelas de madeira de sua casa ao máximo deixando o ar da manhã entrar e sai, depois de um tempo, para sua plantação, com um ancinho em mãos, apoiado em seu ombro como um caçador clássico de filmes de terror que andam com suas armas sobre os ombros e fazem poses ameaçadoras.

Arqueado, olhar distante, sobrancelhas grossas e grisalhas, pouco cabelo que sai de debaixo de um chapéu de palha redondo e velho. Magricelo, aparentemente fraco e frágil, ainda mais quando faz força para capinar e livrar sua plantação de animais e plantas daninhas. Queixo grande, pescoço comprido, alto, pernas longas, veste-se quase sempre com uma blusa branca que sempre acaba ficando marrom, um macacão curto e envelhecido pelo sol, esbranquiçado. Qualquer um que pare por algum tempo para observá-lo sentirá, sem dúvidas, pena e tristeza daquele indivíduo solitário, que não parece sorrir, apenas manter uma expressão neutra e com uma única forma de escapar de sua vida que é olhando além do horizonte que o cerca, imaginando o que pode haver depois de tudo. Mas será que ele é capaz disso? Será que ele se conforma com a forma como vive?

Do que esse homem sobrevive, o que come? Apenas o que planta ou será que ele tem uma reserva de comida incrível no interior de sua pequena casa? Impossível. Impossível também ele sair para a cidade comprar algo, logo seria notado pelas pessoas a não ser que ele adote uma outra personalidade, se vista de forma vistosa, disfarçando-se para que ninguém suspeite dele, ou simplesmente se vista de uma forma melhor para ir à cidade e não chamar a atenção. Quem se importa. Naquele dia, o chamado “Dia das Bruxas”, o velho não iria sair de casa, ele se manteria de guarda, trancaria tudo com cadeados irrompíveis e torceria, de olhos fechados diante de um crucifixo que suas abóboras sejam poupadas, pelo menos as que ele mais gosta. Óbvio demais, aquele velho tem outros planos. Naquela manhã tranqüila, onde o céu anunciava o humor das pessoas e o que estaria por vir no fim da tarde, início da noite e se prolongaria por toda a madrugada. No fim da tarde e início da noite, as crianças atacam, saem de suas casas com suas sacolas e fantasias pedindo doces, fazendo algazarra e travessuras. No fim da noite os jovens e alguns adultos saem para as festas e bailes ou encontros.

O velho homem saiu de sua casa após abrir as janelas, como sempre faz todos os dias de sua monótona e corriqueira vida. Caminhou pela plantação de abóboras com o ancinho sobre o ombro segurando-o com uma das mãos. Olhar distante e olhar objetivo, ele examinou todas as abóboras que pôde, minuciosamente e delicadamente. Agachou-se quando achou que fosse necessário, quando uma abóbora lhe parecia interessante demais ou perfeita.

Ele agachava e seus joelhos tremiam com o movimento, ele sentia que ia desmoronar, que suas juntas iriam romper-se com seu peso que não era muito. Quando levantava o estalo era ainda mais alto e a dor, pelas várias vezes que repetia tal movimento, era alucinante. Ele e aquele ancinho que, pelo tempo, tinha um aspecto sinistro, enferrujado. Sentiu dor no ombro e trocou de lado trocando também de mão. Às vezes ele repousava sua ferramenta no solo enquanto olhava e tocava, pegava uma abóbora que lhe parecia fabulosa. Ele olhou todo o campo, procurava a abóbora perfeita, peso perfeito, casca grossa e de cor viva. A mais bela das belas abóboras que ele cultivava seria a escolhida. E foi no fim da manhã, quando começou a chuviscar fino e o vento soprar frio que ele encontrou, naquelas centenas de abóboras espalhadas por um vasto campo, ele encontrou sua abóbora perfeita.

Formato perfeito, grande, mas não exagerado, sem gomos excessivos ou rachados ou qualquer deformidade. O talo era perfeito, todo o seu corpo era perfeito, sua espessura e peso. Ele então tirou, de debaixo de sua calça, preso em sua canela, um facão também velho e de aparência medonha que ele nunca havia usado. Puxou e um barulho de corte soou pelo ar, pelo silêncio daquela manhã fria. Desceu precisamente o facão no talo e retirou a abóbora. Levantou-se e não se lembrou de sentir dor, guardou o facão e esqueceu o ancinho no chão. Sem desgrudar os olhos de seu precioso objeto, ele caminhou sem erro, desviando de sua plantação precisamente e entrou em sua casa. A porta fechou-se, mas é impossível dizer se foi realmente ele. Ele adentrou na escuridão de sua casa que agora parecia mais sombria que nunca e mais isolada que nunca. Toda aquela vida simples, pelas próximas horas, sumiu. A casa permaneceu lá, janelas abertas, móveis balançando com o vento que cruzava os cômodos, folhas que se desprendiam das árvores em volta que voavam pelo ar. No início da tarde o tempo fechou, escureceu e ameaçou chover. O vento estava forte, as janelas de madeira da casa chocavam-se nas paredes e uma nas outras.
O uivo natural do vento deixou de ser um belo som e tornou-se um som macabro, uma sinfonia para o que estava acontecendo dentro daquela casa. Por mais que observássemos atentamente de fora, não faríamos idéia do que poderia estar acontecendo. Mas lá estava, sob o tapete de seu pequeno quarto, uma passagem de madeira, simples e gasta. Os móveis de sua casa eram simples, soavam tranqüilos e esquecidos pelo tempo e pelo ser humano, habitado apenas pela natureza morta dos quadros nas paredes e nas flores do tapete escuro. Melancolia é o que se sente ao entrar na casa daquele homem, principalmente quando em um dia desses.

O homem estava silencioso, mas muito ansioso. Seus olhos se fixaram de tal maneira na abóbora que só puderam focar outra coisa quando se encontrou por fim no seu porão escondido, um cômodo da área de sua casa na superfície, não muito grande, mas com mais espaço do que cômodos. Ali ele guardava o que bem queria, como objetos curiosos e antigos, dinheiro, moedas antigas, peles de animais caçados em sua juventude que ele não ousa colocar em sua casa como decoração. O local servia também como oficina, uma oficina há muito esperando para ser usada, mas que nunca foi usada por nunca ter havido motivo para isso. Enquanto o tempo passava, o homem gastava seu tempo lendo livros sobre diversos assuntos que estão empilhados e expostos em uma prateleira que ele classifica em ordem alfabética e por tipo. Nenhum romance, nenhum conto, nenhum entretenimento aparente. O homem se entretinha em ler livros de biologia, ciências, natureza humana, anatomia, plantas e, mais estranhamente, espiritismo, ocultismo bíblico e até mesmo feitiçaria. Mas o que importa coisas tão diferentes? Ele responderia que tudo isso tinha uma ligação tão forte quanto a matéria e a matéria. O espírito e o inconsciente, o consciente, o conhecimento e o desvendamento dos limites físicos do ser humano, do corpo humano e animal, “máquinas” perfeitas e impossíveis de se copiar.

Concentração final, últimos preparos. Ele abriu a abóbora, retirou sua polpa, tudo de forma clássica, até o momento, parecendo ter planos de fazer uma abóbora lanterna de Dia das Bruxas. Sua concentração não permitia sorrisos nem demonstração de emoções. Seu cenho quase sempre franzido, olhos atentos, dessa vez, nunca distantes. Dentes apertados, uns contra os outros dentro da boca fazendo crescer os lados de seu rosto fino e magro. Tudo pronto, no fim ele abriu buracos para os olhos, narinas e boca da abóbora. Um sorriso maligno e um olhar aparentemente tranqüilo. As narinas eram dois triângulos juntos. Por fim ele abriu mais um buraco na parte debaixo da abóbora. Agora só faltava o principal: vida. Ele então injetou dentro de si uma droga que ele fabricara com a mistura de substâncias tóxicas e viciantes. Ele sabia que seria, a partir daquele momento, dependente químico da droga, por isso estocou centenas de doses em um armário mais no fundo no porão.

Ele sentou-se então numa cadeira confortável e ali permaneceu sentindo o efeito fluir pelo seu corpo, membros e sua mente, principalmente. Ele não estava mais lá, o que restava agora é se deixar levar pela sua mente adormecida em estado automático. Com a cabeça pendendo para trás da cadeira, seus braços se mexeram, seu corpo estava de volta, sua mente estava ativa. A droga afetou seu cérebro de tal forma que não há mais tato em sua cabeça, sendo impossível que ele abra os olhos, mova a boca, as únicas ações que ele podia fazer era a respiração, involuntária e automática, além, claro, do coração que pulsava sangue pelo seu corpo.

Seus braços então se estenderam e localizaram as ferramentas finais, muito menores que aquela que ele carregava no ombro e que esquecera na plantação. Com uma serra elétrica cirúrgica, ele passeou pela cabeça careca que antes usava uma peruca sob um chapéu de palha velho. O sangue escorreu e logo retirou o tampo de sua cabeça e colocando de lado como se fosse a casca de uma laranja. Daí para frente foi mais fácil terminar de serrar seu crânio até que todos seus órgãos pendessem em uma bandeja ao lado da cadeira confortável. Todo o sangue que jorrava escorria por seu corpo e caía em uma bacia sob a cadeira. A pressa era involuntária, a preocupação do corpo com a vida do homem enquanto ele estava ausente era visível. A abóbora então foi cortada ao meio, não sobre a face e a nuca, mas dos lados, fazendo então duas partes iguais. A primeira foi posta, costurada então com uma agulha, emendando a carne do pescoço na parte de trás com a pele e a casca laranja da abóbora. O corpo foi então deitado, a cabeça pendeu e os órgãos do crânio puderam ser posicionados. Ali, ligados com o restante do corpo, os apoios foram devidamente colocados para sustentar alguns órgãos que não se sustentariam em meio aos outros órgãos como os olhos. Estes foram mantidos em posição por duas bases de madeira lixadas e envernizadas perfeitamente pelo homem que cravam-se na estrutura da abóbora. A tampa ou a face foi então colocada. A pele do pescoço foi costurada junto com a carne à abóbora como na parte de trás.

Pelos cálculos do homem, a abóbora foi cortada e a polpa foi removida de forma que o espaço que restasse prendesse os órgãos de tal forma que o sangue não escorresse pelos orifícios, mas isso era inevitável e com o tempo, ele pareceria chorar sangue. Com o retorno da consciência, o homem pôde se levantar e sentir-se, não completamente, mas o suficiente para saber que sua dor alucinante o perturbaria e ele necessitaria de doses da mesma droga, mas que não o desligasse do corpo como antes, mas que tirasse o tato dos órgãos do “crânio”. Tomou uma dose e, depois de algum tempo, caminhou para um espelho. Ele via apenas dois triângulos que se misturavam. Não havia mais dentes, apenas uma língua pendente num espaço apertado que servia somente para abrir espaço para sua faringe, para que ingira agora, somente líquidos. Limitações que, para ele, valiam a pena. Não poderia dormir a não ser com drogas alucinógenas, a cada seis horas ou menos deveria usar uma dose da droga que tira toda a sensitividade de sua cabeça, entre outras óbvias coisas.

Seu objetivo não era assustar criancinhas, ele não tinha isso em mente, por mais que isso tenha passado por sua mente uma hora depois da sua cirurgia. Seu objetivo era ser o que mais ama, o que mais o obceca em sua vida, ser uma abóbora pensante, de forma mais infantil, um rei. Mas isso mudou sem a escolha dele. Ao mesmo tempo em que ele não dava escolhas a seu corpo, seu corpo não lhe dava mais escolhas. O que seria o automático? O que o controlava enquanto ele estava longe de seu corpo, mas ligado a ele? À medida que o tempo ia passando, ele percebia que seu corpo se manifestava da mesma forma que quando ele usava a droga pesada, contra a vontade de sua mente. Seu cérebro começou a controlar cada vez menos os movimentos de seu corpo, tudo se tornava muito automático. Isso pode estar acontecendo devido às drogas e sua mente, por mais que não tenha consciência disso, começou a agir de acordo com o que ele se preparou sua vida toda para fazer naquele momento onde se operaria inconsciente. Foi então que ele lembrou e percebeu que processo de gravar tudo e decorar tudo havia passado dos limites e afetou sua vida. Mas, mesmo quando ele não tomava as drogas, ele era incapaz de habitar seu corpo.

Ele estava fora. As crianças estavam vindo, era fim de tarde, seu corpo estava incontrolável. Ele torcia para que seu corpo reagisse da forma como ele reagiu todas as vezes, ou ao menos ele achava que reagia como todas as vezes em que as crianças vinham. Seu preparo psicológico fugiu dos limites. Ele estava fora e algo estava dentro. As crianças chegaram.


Por Pedro Ruback

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Serbian Film - Terror Sem Limites

Srpski film (2010)
Dirigido por Srđan Spasojević, com Srđan Spasojević, Sergej Trifunović, Jelena Gavrilović, Slobodan Beštić, Katarina Žutić, Ana Sakić, Lena Bogdanović, Luka Mijatović e Anđela Nenadović.


Palavras-chave: sadismo, pornografia, violência


As informações já foram previamente jogadas na mídia: “Srpski film é o filme mais chocante de todos os tempos”, “o filme mais pesado da década”, “não assistam”, etc, motivou sites e blogs a fazerem listas com os filmes mais fortes e que todos devem manter distância, sendo que Srpski film sempre está no topo da lista. Essa superprodução foi lançada em diversos festivais e a reação das pessoas foi simplesmente chocar-se pelas cenas de teor cruel extremo e, mesmo assim, roda pelo mundo em exibições em salas de cinema, a versão censurada, com dezenas de cortes (49 cenas, totalizando 4 minutos e onze segundos) para poder conseguir chegar a um nível onde possa ser exibido nas salas de cinema e ser comercializado em DVD.

A polêmica foi lançada, descrições das pessoas que viram este filme são demasiadamente encontradas, o número de pessoas revoltadas com a violência extrema apresentada no filme é grande. Mas e aí? O que se fazer perante a isso? Srpski film é surpreendente. Joga na cara do expectador o quão podem as pessoas serem hipócritas diante da violência gráfica do filme e, com certeza, por isso, o filme soe mal compreendido pela mídia.




Srpski film dá um tapa na cara do cinema comercial que explora, não só o sexo extremo, como a violência extrema em busca de público e dinheiro, um retorno mórbido que obviamente alimenta as indústrias que trabalham com o gênero. Não só o cinema de horror extremo é foco, como a própria indústria pornográfica que explora os limites de seus “atores” para criar situações cada vez mais escatológicas, absurdas e doentias a meio de estimular a mente dos expectadores de forma que fiquem no mínimo curiosos mediante aquilo que assistem. Mas Srpski film acerta também onde mais dói. As pessoas gostam, procuram, fazem filmes denominados “snuff”. Snuff é o tipo de filme onde, depois de torturas sexuais, há a execução de um dos indivíduos, a vítima, geralmente do sexo feminino. As pessoas querem ver isso, elas sonham com o submundo pornográfico e quem sabe os filmes snuffs realmente não existam? O sexo com amor já não sacia a sede de perversão, deve-se haver fetiches, ferramentas, violência, ousadia para que tudo saia do monótono, alimentando cada vez mais a intensa sede de prazer sem limites que muitos seres humanos sentem.

Spasojevic, o diretor, deixo claro numa entrevista sua real proposta, não de apenas criticar o cinema, mas de criticar o próprio país: "This is a diary of our own molestation by the Serbian government... It's about the monolithic power of leaders who hypnotize you to do things you don't want to do. You have to feel the violence to know what it's about." O foco interessante dele também pode ser aproveitado para expressar a revolta de muitas pessoas sobre seus países, a própria indústria cinematográfica, os limites e controles que a sociedade e a mídia impõem às pessoas.

Sprski Film conta a história de um ator decadente da indústria pornográfica, Milos, que constituiu família e passa por dificuldades. Ele tem um filho, uma bela esposa e uma boa casa, mas é incapaz de conseguir outro emprego até que uma amiga conta-lhe sobre um cineasta que quer contratá-lo para um projeto milionário e que pode lhe tirar do sufoco em que vive. Pode ser clichê e soar completamente fraco, mas desde o início do filme vemos o potencial que ele tem. O filho de Milos é apresentado vendo um filme pornô de seu pai que ele pegou na estante de casa e, sem entender o que está acontecendo. Seus pais retiram o filme logo que o vêem tentando convencer o filho de que tudo ali é uma brincadeira “do papai com uma amiga”.

Não, Sprski Film não é um filme fácil. A grosseira violência gráfica do filme pode facilmente encobrir a proposta que passa, forte e densa. Srdjan Spasojevic, diretor e protagonista do filme, parece chamar todo mundo envolvido no ramo pornô/terror/extremo de idiota e apresenta tudo aquilo que todos querem ver da forma mais doentia possível, sem exagerar em certos aspectos, se não soaria gratuito. Sprski Film não é um filme gratuito, tudo está lá porque tem que estar, a crítica está clara, é como se intencionalmente Srdjan se rebaixasse ao nível dos filmes que ele critica para poder em fim atingir o órgão vital.


Mesmo assim, o filme consegue deixar o espectador mal. As cenas variam entre o sexo atenuado apresentado de cinco em cinco minutos, sendo este vulgar somente quando se propõe e deve ser vulgar, e a violência. O sexo entre Milos e sua esposa não passa de sexo puro com amor, mesmo quando ela pergunta a ele “você nunca pensou apenas em me foder?” enquanto assistiam a um filme pornô que ele fez há muito tempo e ele dizia “com você eu faço amor e com elas eu apenas fodo”. E então ele deixa claro para ela, fisicamente, que a sensação do filme pornô não é uma sensação agradável.

A violência no filme é feita para revoltar, chocar, essa é a intenção. Um homem mascarado amarra uma mulher grávida, retira seu bebê e faz sexo com ele. Outro homem mascarado é apresentado, depois de arrancar todos os dentes de uma mulher, forçando ela a fazer sexo oral nele e tampando o nariz dela sufocando-a e a matando. A forma como tudo aquilo é conduzido faz mais com que sintamos revolta à simplesmente nojo ou vontade de sair da sala (ou desligar o filme), uma atitude extremamente hipócrita da parte do expectador que se dispõe a assistir um filme desses.

Até a metade do filme, tudo soa linear e padrão, mas é depois que ele acorda em sua casa, cheio de ferimentos e sem entender muito que vemos a narrativa do filme começar a ficar mais interessante. Frenético, o filme alterna em momentos em que ele se lembra de flashs do que acontecera e quando ele pega uma câmera com vários tapes e começa a vê-los. O filme vai, daí para frente, apresentando os limites da mente humana, não poupando o expectador de detalhes. Há apenas um momento claro do filme que deixa visível sua proposta crítica, e ele se encontra nos ápices. O melhor de tudo é que nada é jogado na nossa cara esclarecendo tudo o que devemos entender, apenas fica no ar a compreensão pessoal do filme.

Sprski Film tem qualidades de filmes com grandes orçamentos, tudo é muito bem feito, filmado e o diretor não se limita a cenários mal feitos, é uma espécie de gore anti-trash que convence muito. Não digo que é um filme que deva ser visto por todos, mas por aqueles que se disponham a assistir sabendo o que vão ver para não mancharem a imagem do filme como fazem aos montes pela internet. Pode sim, ser considerado um dos filmes mais pesados da história, ao lado de Subconscious Cruelty, mas seria melhor se o figurassem no hall dos importantes, como Salò o le 120 giornate di Sodoma, Irréversible, Ex Drummer e Antichrist.


O filme consegue, mesmo com todos os seus recursos e boa narrativa, não trazer nada de realmente novo para o cinema, fora sua já clara ousadia. Ver um filme desse só se for pelo que eu já disse, sua profundesa crítica e, de outra forma qualquer é inútil ainda mais quando o expectador é fundamentado pelas opiniões alheias que destroem o filme como Magno Malta falou mesmo sem ter visto o filme (ridículo). O filme também consegue se propor nulo em qualquer tipo de apologia. Os estupros estão lá, a violência, o prazer insano dos atores, mas nunca julga e muito menos faz diretamente com que o expectador sinta prazer no que está vendo, já que o filme é narrado do ponto de vista de Milos, o ator pronô que se volta contra tudo aquilo. Os moralismos estão camufladamente presentes e não comprometem a história, fazendo-a fluir livremente.

A recomendação segue alertando o nível do filme e, fica a julgamento de cada um assistir ou não. Está rolando a polêmica de que o Brasil seria o primeiro país a exibir o filme sem cortes (com 104 minutos) nos cinemas, mas foi proibido há pouco tempo. Agora é torcer para que algo seja feito já que a censura é o pior mal da raça humana, algo hipócrita e que visa o controle do que as pessoas vêem sem nem mesmo raciocinarem sobre o quão inútil e ruim é a censura vendo que ela só colabora para o interesse do público que, de acordo com eles, deveriam se manter distante do filme (menores de 18 anos). Uma pessoa verá de acordo com o grau de maturidade, não há cabimento proibir alguém de ver um filme, se quiserem simplesmente fazem o download da versão completa pela internet, que é a coisa mais fácil do mundo. E que falso moralismo é esse que proíbe um FILME ser exibido enquanto, na tv aberta, vemos banhos de sangue, espancamentos, pessoas reais vivendo horrores no mundo e, além do mais, sobre o sensacionalismo das emissoras. Pensemos.




Avaliação: 8/10

Por Pedro Ruback

sábado, 9 de julho de 2011

Aguardem

ESPECIAL DE HALLOWEEN


MINHA AUSÊNCIA DO BLOG NÃO FOI ESQUECIMENTO. NO MÊS DE AGOSTO HAVERÁ UM ESPECIAL DE HALLOWEEN COM MATÉRIAS, CRÍTICAS DE FILMES, CONTOS E OUTROS COMO GALERIAS DE IMAGENS.




ENQUANTO ISSO, APRECIAM ESSAS MÚSICAS









quarta-feira, 15 de junho de 2011

Angst

Angst (1983)
Dirigido por Gerald Kargl, com Erwin Leder, Silvia Rabenreither, Edith Rosset, Rudolf Götz, Renate Kastelik e Robert Hunger-Bühler.


Palavras-chave: psicopata



Angst é a prova de que cinema pode muito bem tratar de temas reais com realismo, sem exageros e sem afetações comuns da indústria cinematográfica, não apenas de uma indústria, mas do meio, um meio que, de certa forma, limita aqueles que são influenciados por outros diretores e têm certa dificuldade de dar toques originais à suas obras por meio do padrão já sugerido na história da arte cinematográfica. Ainda que haja exemplos fantásticos do cinema original em termos de variações estilísticas e variações no comportamento da câmera sobre o cenário e os atores, como Gaspar Noé ("Irréversible", 2004) e Béla Tarr ("Sátántangó", 1994), é difícil encontrarmos uma fusão da proposta do realismo na tela sem usar de táticas mais cruas e sem certo diferencial (o que não quer dizer que sejam ruins, muito pelo contrário) como a câmera estática ou distante da ação como em diversos casos, usando pouca edição para chocar em cenas chaves de filmes que propões realismo sobre aspectos como violência e sexo. Gerald Kargl consegue fundir o chocante e realista com tomadas frenéticas que não dão descanso, muitas vezes com edições rápidas, característica que geralmente atrapalha a experiência. Kargl consegue utilizar a edição de forma positiva, sem exageros e aposta com tudo na proposta do filme, que é reforçada pela sua maestria com a câmera. A filmagem de Kargl é um caso brilhante de originalidade e libertação, sem fronteiras. Sem medo, o diretor abusa de ângulos altos e baixos, distantes, aéreos e pertos. Foge dos padrões, evita o máximo a câmera no nível do ator, refletindo, conforme o filme decorre, o estado do protagonista. Nesse caso, o estado mental de um psicopata.

O filme conta a história de um homem que acaba de ser solto da cadeia onde passou quatro anos preso por conta de um assassinato. Ele sai da prisão, se vê na rua, andando a esmo entre carros e indo parar em uma lanchonete. O homem narra sua vida em off enquanto caminha com olhares assustados pelas ruas e olha para as pessoas de forma analítica, pensando e tentando se controlar. Os quatro anos em que esteve preso só fez sua loucura acumular e ele, conscientemente, aguarda pelo momento em que não terá controle de seu corpo e mente e acabará “fazendo de novo”. As moças jovens e belas no balcão, a balconista, o homem lendo jornal, ele não consegue aqui. Levanta-se e continua andando pela cidade, entra num taxi. Ele teme e torce ao mesmo momento pela hora em que ele se aliviará e sentirá, em fim, prazer. Ele tenta matar a motorista do taxi, mas ela logo percebe suas intenções doentias. Ele não tem coragem de prosseguir, foge e acaba encontrando uma casa isolada. Uma enorme casa, sem mobílias. O lugar perfeito. Não demora a que quem mora lá apareça.



Apesar do grande desgaste que o cinema, tanto comercial quanto o não-comercial, exerceu sobre o tema “psicopata”, esse filme mostra que o tema tem muito sobre o que falar e não necessariamente muito o que mostrar. Os psicopatas já foram explorados aos montes, suas motivações, suas perturbações, o que os levou a ser o que são, etc, etc, e conseguiram não tem muita relevância, principalmente no gênero em que se explora mais este tema e estes personagens: o terror. Mas poucas vezes debateu ou então estudou a mentalidade deles. Uma pessoa psicopata é uma pessoa doente, na maioria das vezes não é necessário um trauma passado para torná-las psicopatas, basta apenas uma pré-disposição mental para tal coisa, um impulso interior incontrolável, um descontrole emocional. Psicopatas, assim como viciados em drogas ou pedófilos, não têm controle sobre seus impulsos, levando-os a cometer atos que algumas vezes eles mesmos não aprovam. O que não é o caso do psicopata sem nome desse filme.

Fica claro sua falta de estrutura intelectual e emocional para ele entender que seus atos são coisas danosas e ruins que ele deve evitar. Aqui, o psicopata, por mais que sacie o prazer que deseja, não quer parar, pois a sensação de alegria e paz o envolve de tal forma que ele não se arrepende dos atos cometidos, o levando a querer mais e mais, o que, além de ser uma doença, é muito mais poderoso, se torna uma obsessão. À medida que ele conta sua história em off, nós começamos a conhecê-lo, mesmo que tudo seja muito raso e o foco seja mais em seu estado mental durante seus atos. Ele narra suas sensações enquanto corre, mata, observa pessoas, etc. Isso é o básico do filme, é o que está claro. O diretor então não se limita em criar um personagem completo, ele quer que todos os personagens sejam personagens completos, mesmo que tudo seja narrado sob a visão do psicopata. Quando o protagonista ataca os moradores da casa, logo vemos como cada um que vive ali é, e nada fica muito claro. Percebemos logo que não é exatamente uma família normal. Um homem deficiente mental e físico, uma senhora velha e uma jovem garota. Uma cena em particular chama muito a atenção: quando o psicopata agarra essa garota, ela se excita. Notamos então que não há clichês, o próprio protagonista se questiona sobre os impulsos da jovem. Fica no ar então. O fato de ela não gritar nem reclamar ou buscar socorro deriva de quê? Quem é aquela jovem? Quem são aquelas pessoas? Grande parte do filme foca apenas nessa seqüência onde o psicopata ataca a família e já é o bastante para conseguirmos estudar cada um deles de forma única.



Erwin Leder, o ator que interpreta o psicopata, está brilhante, todas as expressões, de felicidade, medo, raiva, excitação são magnificamente executadas pelo ator. O nervosismo desconfortante que predomina durante toda a projeção, o ritmo acelerado. O filme pode soar corrido, mas não é, reflete, já que segue o psicopata o tempo todo, todas as emoções do personagem, principalmente euforia e de busca pelo prazer desesperadamente e de forma que ele possa ser prolongado e melhor sentido, num pequeno momento de sua vida. Tudo isso faz com que o filme seja mais sufocante, angustiante.

O filme é baseado em fatos reais. O real autor dos assassinatos se chama Werner Kniesek. As narrações em off são citações de reais psicopatas, como a de Peter Kürten, conhecido como Vampiro de Dusseldorf.

Mesmo que sua temática aborde assassinatos em série e haja um horror óbvio no meio de toda a película, “Angst” pode ser classificado como drama e não invoca o horror por meio de exageros, ainda que seja tudo muito cru. É um filme maduro, uma aula de como dirigir um filme fugindo dos padrões, um marco. Excelente filme e, mesmo o diretor tendo dirigido apenas este longa, seu filme já alcança o status de obra-prima, principalmente por abordar o tema de forma humana e lógica.





Avaliação: 9/10



Por Pedro Ruback

domingo, 12 de junho de 2011

Especial - Curtir é Covardia

Por Jonathan Franzen

Duas semanas atrás, substituí meu BlackBerry Pearl, já com três anos de idade, por um BlackBerry Bold, muito mais poderoso. Nem preciso dizer como fiquei impressionado com o quanto a tecnologia avançou em três anos. Mesmo quando não havia ninguém para telefonar ou mandar e-mail, eu queria continuar mexendo no meu novo Bold e sentir a maravilhosa nitidez de sua tela, a movimentação sedosa do seu trackpad, sua chocante velocidade de resposta, a sedutora elegância de seus gráficos.

Em resumo, fiquei apaixonado por meu novo dispositivo. É claro que o dispositivo anterior também tinha despertado em mim uma paixão semelhante; mas, com o passar dos anos, nosso relacionamento perdeu brilho. Surgiu uma série de problemas na minha relação com o Pearl: problemas de confiança, de responsabilidade, de compatibilidade e até, na porção final de nossa história conjunta, algumas dúvidas em relação à própria sanidade do meu Pearl, até que finalmente vi-me obrigado a reconhecer que eu tinha amadurecido e perdido o interesse naquele relacionamento.

Será que preciso destacar o quanto nosso relacionamento era – na ausência de uma extravagante e antropomorfizante projeção segundo a qual meu antigo BlackBerry teria ficado magoado com o esmaecimento do amor que eu sentia por ele – absolutamente unilateral? Permita-me destacá-lo mesmo assim.

Permita-me destacar ainda a frequência absurda com que a palavra “sexy” é usada para descrever os modelos mais recentes de dispositivos eletrônicos; e o quanto as coisas extremamente bacanas que podemos agora fazer com estes dispositivos – como ativá-los por meio de comandos de voz ou usar os dedos espalhando-os sobre a tela do iPhone para aumentar as imagens – pareceriam ser, para as pessoas de cem anos atrás, verdadeiros encantamentos de mágico, gestos de mago; e o quanto recorremos, na tentativa de descrever um relacionamento erótico que esteja funcionando perfeitamente, à metáfora da magia.

Permita-me propor a ideia de que, conforme nossos mercados descobrem e respondem àquilo que os consumidores mais desejam, nossa tecnologia se torna extremamente hábil na criação de produtos que correspondam ao nosso ideal fantasioso de um relacionamento erótico, no qual o objeto amado se entrega por completo sem exigir nada em troca, instantaneamente, fazendo que nos sintamos todo-poderosos, sem criar cenas constrangedoras quando é substituído por um objeto ainda mais sexy, sendo então relegado a uma gaveta.

Falando numa perspectiva mais geral, o objetivo definitivo da tecnologia, a teleologia da techné, é substituir um mundo natural indiferente a nossos desejos – um mundo de furacões e dificuldades e corações partíveis, um mundo de resistência – por outro mundo que responda tão bem a nossos desejos a ponto de ser, com efeito, uma mera extensão do ser. Permita-me sugerir, finalmente, que o mundo do tecnoconsumismo é, portanto, incomodado pelo amor verdadeiro, restando-lhe como única escolha responder perturbando o amor.

Sua primeira linha de defesa é transformar seu inimigo em commodity.

Todos saberão citar seu favorito dentre os nauseabundos exemplos da mercantilização do amor. Eu mencionaria a indústria do casamento, os comerciais de TV que mostram lindas criancinhas e também a prática de oferecer automóveis como presente de Natal, e a particularmente grotesca equação que compara as joias com diamantes à devoção eterna. A mensagem, em cada um dos casos, é bastante clara: se você ama alguém, compre alguma coisa.

Um fenômeno relacionado a esse é a transformação do verbo “curtir” (“like”, em inglês) que, graças ao Facebook, deixa de ser um estado de espírito e passa a ser um ato que desempenhamos com o mouse – deixa de ser um sentimento para virar uma opção de consumo. E curtir é, no geral, o substituto que a cultura comercial oferece para o ato de amar. A característica mais notável de todos os produtos de consumo – e principalmente dos dispositivos eletrônicos e aplicativos – é o fato de terem sido projetados para serem imensamente curtíveis. Esta é, na verdade, a definição de um produto de consumo, em contraste com o produto que é apenas aquilo que é e cujos fabricantes não estão concentrados na possibilidade de o curtirmos ou não. (Estou pensando nos motores a jato, no equipamento de laboratório, na arte e na literatura em suas manifestações mais sérias.)

Mas, se pensarmos nisso em termos humanos, e imaginarmos uma pessoa definida pela ansiedade desesperada de ser curtida, qual é o quadro que vemos? O de uma pessoa sem integridade, descentrada. Em casos mais patológicos, vemos um narcisista – alguém incapaz de tolerar em sua autoimagem as manchas que seriam representadas pela possibilidade de não ser curtida e que portanto busca uma fuga do contato humano ou se dedica a sacrifícios cada vez mais extremos da própria integridade com o intuito de ser curtida.

Curtível. Se uma pessoa dedica sua existência a ser curtível, entretanto, e se adota qualquer máscara bacana que se mostre necessária para atingir tal fim, isso sugere alguém que perdeu a esperança de ser curtido por aquilo que realmente é. E, se formos bem sucedidos na tentativa de manipular os outros e fazê-los nos curtir, será difícil não sentir, em algum nível, um verdadeiro desprezo por tais pessoas, pois caíram no nosso embuste. A pessoa pode ficar deprimida, cair no alcoolismo ou, se estivermos falando de Donald Trump, concorrer à presidência (e depois desistir).

Os produtos tecnológicos de consumo nunca fariam algo tão pouco atraente, pois não são pessoas. Eles são, no entanto, grandes aliados e facilitadores do narcisismo. Além da ansiedade de serem curtidos já incorporada a eles, há também uma ansiedade de causarem boa impressão em nós. Nossas vidas parecem muito mais interessantes quando são filtradas pela interface sexy do Facebook. Somos os astros de nossos próprios filmes, fotografamos incessantemente a nós mesmos, clicamos o mouse e uma máquina confirma a sensação de que estamos no comando. E, já que nossa tecnologia não passa de uma extensão de nós mesmos, não precisamos desprezar seus traços manipuladores como faríamos no caso de pessoas reais. Trata-se de um ciclo interminável. Curtimos o espelho e o espelho nos curte. Ser amigo de uma pessoa significa apenas incluí-la na sua lista particular de espelhos elogiosos.

Talvez eu esteja exagerando um pouco neste caso, só um pouco. Muito provavelmente, você já está cansado de ver as mídias sociais sendo desrespeitadas por cinquentões ranzinzas. Meu objetivo aqui é estabelecer um contraste entre as tendências narcisistas da tecnologia e o problema do amor verdadeiro. Minha amiga Alice Sebold gosta de falar em “amar alguém e se lambuzar”. Ela tem em mente a sujeira que o amor inevitavelmente espalha sobre o espelho de nosso respeito próprio.

O simples fato é que a tentativa de ser perfeitamente curtível é incompatível com os relacionamentos amorosos. Mais cedo ou mais tarde, por exemplo, você se verá numa briga horrível, aos berros, e ouvirá saindo de sua boca palavras que você mesmo não curte nem um pouco, coisas que estilhaçam sua autoimagem de pessoa justa, gentil, bacana, atraente, controlada, divertida e curtível. Alguma coisa mais real do que a curtibilidade surgiu de você e de repente você se vê levando uma vida real.
Subitamente existe uma escolha de verdade a ser feita – não uma falsa escolha de consumidor entre BlackBerry e iPhone, e sim uma pergunta: Será que eu amo esta pessoa? E, para o outro, será que esta pessoa me ama?

Não existe a possibilidade de curtir cada partícula da personalidade de uma pessoa real. É por isso que um mundo de curtição acaba se revelando uma mentira. Mas é possível pensar na ideia de amar cada partícula de uma determinada pessoa. E é por isso que o amor representa tamanha ameaça existencial à ordem tecnoconsumista: ele denuncia a mentira.

Isso não equivale a dizer que o amor envolve apenas as brigas. O amor é questão de empatia ilimitada, nascida de uma revelação feita pelo coração mostrando que outra pessoa é tão real quanto você. E é por isso que o amor, ao menos no meu entendimento, é sempre específico. Tentar amar a toda a humanidade pode ser um empreendimento digno, mas, de um jeito engraçado, isso mantém o foco no eu, no bem estar moral ou espiritual do eu. Ao passo que, para amar uma pessoa específica e identificar-se com as lutas dela como se fossem as suas, é preciso abrir mão de parte de si.

Neste caso, o grande risco envolvido é, sem dúvida, a rejeição. Todos nós podemos suportar momentos em que não somos curtidos, pois existe uma gama virtualmente infinita de curtidores em potencial. Mas expor a totalidade do seu eu, e não apenas a superfície curtível, e com isto ser rejeitado, é algo que pode se revelar insuportavelmente doloroso. A perspectiva geral da dor, a dor da perda, da separação, da morte, é o que torna tão tentadora a ideia de evitar o amor e permanecer em segurança no mundo do curtir.

Ainda assim, a dor machuca, mas não mata. Quando levamos em consideração a alternativa – um sonho anestesiado de autossuficiência, incentivado e aprovado pela tecnologia – a dor emerge como produto natural e indicador natural de que estamos vivos num mundo resistente. Levar uma vida indolor equivale a não viver. Até dizer a si mesmo, “Ah, vou deixar para depois esta história de amor e de dor, talvez para depois dos 30 anos” é como resignar-se a passar 10 anos simplesmente ocupando espaço no planeta e consumindo seus recursos. Resignar-se a ser um consumidor (palavra que emprego no seu sentido mais pejorativo).

Pássaros. Quando estava na faculdade, e por muitos anos depois disto, eu curtia o mundo natural. Eu não o amava, mas sem dúvida o curtia. A natureza pode mesmo ser algo muito belo. E, como eu estava em busca de coisas no mundo que me parecessem erradas, gravitei naturalmente na direção do ambientalismo, pois sem dúvida havia muitas coisas erradas com o meio ambiente. E quanto mais eu olhava para aquilo que estava errado – uma população mundial em explosão, o consumo desenfreado dos recursos naturais, o aumento nas temperaturas globais, a contaminação dos oceanos, o corte das últimas florestas antigas –, mais furioso me tornava.

Finalmente, em meados dos anos 90, tomei conscientemente a decisão de parar de me preocupar com o meio ambiente. Pessoalmente, não havia nada de significativo que eu pudesse fazer para salvar o planeta e, além disso, tinha vontade de seguir na vida me dedicando às coisas que amava. Continuei me esforçando para manter pequena minha “pegada de carbono”, mas esse parecia ser o meu limite antes de recair na raiva e no desespero.

Foi então que me ocorreu algo engraçado. Trata-se de uma história comprida, mas, basicamente, apaixonei-me pelos pássaros. Isto não ocorreu sem uma resistência considerável, pois é muito cafona ser um observador de pássaros, já que qualquer indício que revele uma paixão verdadeira é, por definição, algo cafona. Mas, aos poucos, apesar da relutância, desenvolvi essa paixão e, se metade de uma paixão é a obsessão, a outra metade é o amor.

Bem, devo admitir que mantive uma lista meticulosa das espécies de pássaros que eu já tinha visto e admito também que fiz esforços incomuns em nome da oportunidade de conhecer espécies diferentes. Mas, igualmente importante, sempre que olhava para um pássaro, qualquer pássaro, mesmo uma pomba ou um tordo, eu sentia o coração transbordar de amor. E o amor, como venho tentando expor aqui, é onde começam nossos problemas.

Pois agora, não apenas curtindo a natureza, mas amando uma parte específica e vital dela, eu não tinha escolha a não ser voltar a me preocupar com o meio ambiente. As notícias sobre este assunto não tinham melhorado desde a época em que decidi parar de me importar com elas – eram na verdade consideravelmente piores –, mas agora aquelas florestas e pântanos e oceanos ameaçados não eram mais cenários bonitos dos quais eu poderia desfrutar. Eram o lar de animais que eu amava.

E foi então que um curioso paradoxo emergiu. A raiva e a dor que eu sentia diante da situação do planeta só foram amplificadas por minha preocupação com os pássaros silvestres, mas, conforme eu aprendia sobre a preservação dos pássaros e me envolvia com esse tipo de iniciativa, aprendendo cada vez mais a respeito das ameaças que os pássaros enfrentam, tornou-se mais fácil, e não mais difícil, conviver com a raiva, o desespero e a dor.

Como pode ser uma coisa dessas? Acho que, para começar, meu amor pelos pássaros se tornou um portal para uma parte importante e menos autocentrada de mim, que eu nem mesmo sabia que existia. Em vez de seguir à deriva pela vida de cidadão global, curtindo e descurtindo e guardando meu envolvimento para algum momento posterior, fui obrigado a confrontar uma parte de mim que até então eu tinha de aceitar totalmente ou rejeitar absolutamente.

Exatamente aquilo que o amor faz com uma pessoa. Pois a questão fundamental envolvendo a todos nós é o fato de que vivemos por algum tempo, mas morreremos em breve. Esse fato é a verdadeira causa fundamental de toda a nossa raiva, dor e desespero. E a pessoa pode optar por fugir desse fato ou, por meio do amor, aprender a aceitá-lo. Quando ficamos em nossos quartos e bufamos ou caçoamos ou damos de ombros indiferentemente, como eu fiz durante tantos anos, o mundo e seus problemas parecem impossivelmente desafiadores. Mas, quando saímos e nos colocamos em relacionamentos reais com seres reais, ou mesmo animais reais, há o perigo bastante real de amarmos alguns deles.

E quem pode prever que rumo a vida tomará então?


Tradução de Augusto Calil
Fonte: http://blogs.estadao.com.br/link/curtir-e-covardia/
Texto original: http://www.nytimes.com/2011/05/29/opinion/29franzen.html